Bairros

Varandas abrem mais espaço ao lazer e social

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 10 min

Malavolta Jr.
Ieda Maria Souza fez ela própria a decoração da varanda

Alpendre, terraço, balcão, terraço, sacada, área (pátio externo) ou simplesmente varanda são nomes dados àquele espaço aberto na frente da casa, em geral ligados à sala de estar, utilizado pelos moradores para se refrescar,  tomar um ar, descansar, reunir a família e amigos ou então simplesmente olhar para o céu e  deixar o tempo passar.

Conta a história que varandas são uma adequação climática da casa portuguesa em território tropical. Nasceram da necessidade de evitar que o calor daqui adentrasse ao interior da casa.

Originalmente, elas são uma adaptação aos casarios do primeiro século de colonização do País (entre os anos 1.500 a 1.600), quando se construíam as janelas altas e  edifícios bem rentes às calçadas em ruas estreitas. As primeiras edificações brasileiras, urbanas ou não, como as de sedes de fazendas, seguiam o estilo arquitetônico português.

Os alpendres

Altos, apoiados em suas extremidades por colunas, os alpendres são considerados uma invenção arquitetônica brasileira. Formam um telhado que se prolonga para fora da parede mestra da casa. Sua função, já é bem definida entre os anos de 1700 a 1900: a de refrescar a casa e evitar a entrada do sol direto e é do ponto de vista da arquitetura uma adaptação do bangalô indiano.

Nas construções mais abastadas, o alpendre aparece em todas as suas quatro faces ou pelo menos na área frontal e na detrás.  Na parte traseira há uma necessidade: como muitas vezes a cozinha ficava separada da casa, por causa do fogão a lenha que obrigava à falta de forro e até uma questão de higiene, havia a necessidade do alpendre, a unir as duas partes. É por sinal esse alpendre de trás que dá origem à chamada copa, tal como conhecemos hoje, que é a parte onde se faz as refeições, espaço que foi, ao longo do tempo, sendo fechado para dar mais conforto.

As varandas

Segundo estudo das arquitetas e urbanistas Helena Câmara Lacé e Angela Maria Moreira da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), há diferença entre alpendres e varandas. 

“Um alpendre pode vir a ser uma varanda (visto que este, por definição, pode ser um espaço aprazível e de convívio da família), mas nem toda a varanda é alpendrada”, sustentam no estudo “Varandas nas Moradias Brasileiras”, publicado em 2005.

As sacadas

Nos dias de hoje, as varandas são uma grande aposta dos projetos contemporâneos, seja em casas ou em apartamentos. Aliás, com a verticalização urbana, elas viraram sinônimo de sacadas e se transformaram em espaços de lazer, indo além de sua função primordial.

Morar em apartamentos com sacadas é um luxo, valoriza os imóveis num momento em que cada centímetro de construção deve ser bem projetado e, melhor ainda, bem utilizado.

Isso é o que importa: utilizar bem esse espaço de convívio que há muito deixou apenas de ser chão de passagem ou de entrada do imóvel.

Sentar na varandinha em uma manhã ou tarde ensolarada é uma das melhores coisas a fazer. Se for um espaço bem compartilhado, melhor ainda.

Mesmo as pequenas, se traduzem em sinônimo de amplitude, pois ampliam o espaço interno da sala de estar ou da sala de jantar,  por exemplo, e, ao mesmo tempo, são sinônimo de aconchego. O que mais importa é saber aproveitar esse espaço.

Os varandeiros

Aos 80 anos, o professor e promotor aposentado Alfredo Eneias Gonçalves D’Abril, mora na mesma casa, no Higienópolis, há pelo menos 40 anos. E tem uma convivência muito grande com a varanda do local. Na verdade, um espaço que abrigou várias “confrarias” de amigos. Um local muito bem aproveitado por ele e uma dezena de companheiros. Ao longo destes anos foram pelo menos duas turmas diferentes a frequentar o ambiente.

Ele conta que o grupo, até por circunstâncias da própria vida, sempre foi se renovando. Houve um período em que se encontravam só os pescadores, ou seja, um grupo de amigos que, todo ano, programavam uma pescaria no Mato Grosso.

Primeiro tinham que se reunir para programar a viagem e toda a logística do empreendimento. “E quem conhece como é uma pescaria num local distante desses sabe que é preciso ter tudo bem programado”, conta.

E quando voltavam da pescaria, o que acontecia? Mais um motivo para se reunirem. Afinal, tinham muito o que rememorar, histórias para contar, fazer o balanço, uma espécie de resenha da mais recente temporada de pesca. E lá estava a varanda servindo de cenário novamente.

O interessante é que sempre houve uma rotina nesses encontros. Eles tinham hora para começar e hora para terminar. Sempre aos sábados, antes do almoço, por duas horas. Começavam religiosamente às 11h e terminavam às 13h.

O professor define essa rotina como algo muito saudável. “Isso porque o aposentado tem uma vida muito isolada e, nessas nossas conversas, é sempre bom para nos atualizarmos sobre o que está acontecendo no mundo. Compartilhamos experiências, falamos sobre os noticiários, as novidades do País. Isso é muito bom. Sem contar que cada troca de ideias só nos faz abrir a mente. A gente não fica travado no tempo”, conta para acrescentar que tudo é regado a churrasco, beliscos e com pouca bebida alcoólica. “Na verdade, só bebemos socialmente e, hoje em dia, nem isso”, conta ele.

Por que diz “hoje em dia”? Porque os encontros não acabaram não. Apesar de a varanda não estar mais sendo utilizada, o professor Alfredo e meia dúzia de amigos continuam a se encontrar religiosamente todos os sábados. Só que agora o local escolhido é uma cafeteria.  

Sossego e aconchego

A jornalista Elaine de Souza tem também uma varanda à moda tradicional em sua casa no Jardim Terra Branca. E gosta de desfrutá-la de todos os modos possíveis. Sozinha ou recebendo amigos e familiares. Sem contar que é um espaço tranquilo para seus cães.

“Para mim, a varanda é lugar de sossego, aconchego... É o espaço onde posso ler um livro, artesanar, brincar com os meus cachorros - a Mel e o Chicão - e cuidar da minha hortinha que, aos poucos vai crescendo... Já tenho cebolinha, coentro, poejo (para um chá), manjericão... É É meu canto preferido também para receber a família e os amigos para um lanche”, relata.

Elaine não faz questão do luxo e valoriza a simplicidade. “Nessa varanda é tudo muito simples. Eu arrumei o canto com materiais recicláveis, objetos de minha memória afetiva e com peças utilitárias e também decorativas esculpidas em madeira pelo meu marido, o Leandro Prado. É o nosso cantinho”, conta com alegria enquanto recebe o carinho dos animais de estimação.

Quase 90% dos apartamentos da cidade têm pelo menos uma sacada

Segundo a Secretaria de Planejamento (Seplan) da Prefeitura de Bauru, há na cidade 177 edifícios de apartamentos e cerca de 90% desses são prédios destinados a moradias (ou combinados entre moradias e galerias ou escritórios). Desses imóveis também se calcula que de 85 a 90% deles sejam servidos com, pelo menos, uma sacada cada um. O levantamento do número de edifícios é do final do ano passado e não há o número exato de quantos são dotados de varanda.
Mas uma coisa é certa: nos bairros mais nobres, da zona sul, 100% deles são contemplados com sacadas e, mesmo entre  os imóveis projetados para serem mais populares, destinados a pessoas de menor poder aquisitivo, há uma tendência de projetar predinhos com varandas. Foi-se o tempo em que esses espaços serviam apenas como local para colocar o varal com as roupas para secar. Nada disso.

Quatro cantos

No Bela Vista, Vila Cardia, Higienópolis e região universitária há apartamentos nesse estilo, bons, baratos e bonitos, com sacadinhas estratégicas. O que prova que mesmo em edifícios que não se encaixam no chamado alto padrão esses espaços de convívio passaram a fazer parte da área social.

Aliás, os novos projetos de apartamentos vêm tratando, cada vez mais, as varandas como excelente investimento. Forma de valorizar cada vez mais o imóvel. Segundo levantamento de imobiliária, desde os do segmento econômico até os de alto padrão, os apartamentos oferecem espaços como pontos de ambientação social dentro das residências. Além de proporcionar a melhor convivência dos moradores com seus visitantes, as varandas oferecem um benefício de ordem financeira à valorização do imóvel, que pode chegar até 50% do valor do imóvel. Isso quando as varandas são a extensão da sala de estar. Nos novos projetos esses espaços passaram a fazer parte da área social, muitas vezes, sem que o limite entre os dois ambientes seja notado. O que valoriza muito mais o imóvel.

O mais belo por do sol

Quem conhece Gisele Peralta está acostumado a ver em suas redes sociais o compartilhamento das mais belas fotos do amanhecer ou entardecer de Bauru.

Privilegiada, morando em zona nobre e, com varanda dupla, tanto na área social quando na íntima, ela, que não é fotógrafa, embora seja uma comunicadora nata, colhe os frutos desse hobby, em elogios, milhares de curtidas e até reproduções profissionais.

“Por duas vezes minhas fotos foram publicadas nas redes sociais do Estadão (do jornal O Estado de S. Paulo), que costuma compartilhar imagens de tirar o fôlego de seus seguidores. Fiquei muito feliz porque do mesmo jeito que as imagens me emocionaram, emocionaram também os responsáveis pela escolha das fotos do dia e depois milhares de seguidores”, explica.

Ela, que hoje comanda um site feminino o “Clube das Comadres”, conta como tudo começou: “Moro há seis anos neste lugar e a visão que tenho da minha varanda é privilegiada! Já morei em outros prédios, mas neste o horizonte é muito mais bonito. Comecei a fotografar o céu, depois o sol nascendo, depois o sol se pondo... E comecei bem antes dessa febre de todo mundo fotografar para colocar nas redes sociais”, revela.

“Quando começo a olhar para o horizonte, ver a natureza agindo, me desligo completamente de tudo! Parece que viajo no tempo, aperto um botão e embarco no espetáculo que nasce diante dos meus olhos”, complementa.

Gisele ainda cita outro benefício do local: o psicológico. “Às vezes, não estou muito bem, saio na varanda para dar uma respirada e tudo passa, me sinto mais tranquila, parece que minhas energias são recarregadas pela magia que vem lá de cima”, declara.

Local ajuda a energizar veterinária com câncer

Malavolta Jr./JC Imagens
Rita Godoy optou por dividir com os amigos, nas redes sociais, seus problemas de saúde, mas na hora em que precisa estar consigo mesma o refúgio é a paisagem de cores exuberantes

Se Gisele Peralta se sente bem em sua varanda, imagina o que o local não representou na vida de uma mulher em tratamento de um câncer? Aos 38 anos, Rita de Cássia Godoy está no último estágio de cura da doença e se prepara para voltar a trabalhar dentro de 60 dias.

Depois de um ano e meio de sessões de quimio e radioterapia e uma colostomia provisória, o tratamento custou a essa veterinária 15 quilos a menos e minou suas forças, mas não o suficiente para que ela desistisse. Com os amigos nas redes sociais, ela dividiu seu drama todos estes meses. Sempre com um sorriso nos lábios e opiniões otimistas.

A ajuda da família, especialmente dos pais, foi fundamental, mas Rita também reconhece que ter seu cantinho, um apartamento pequeno, mas muito bem localizado na zona universitária, foi determinante para sua melhora.

Ela mesma conta o que o local representa: ‘Às vezes, quando o sol começa a ser pôr, vou até a minha varanda e fico esperando o espetáculo do céu. Deixo meus olhos irem encontrar o infinito, nessse momento nada me distrai. Concentro-me nas cores que se formam no céu. Sinto vontade de caminhar sobre as nuvens para ir de encontro ao sol e obter toda a amplitude de sua energia”. 
Rita tem dons artísticos. Gosta de ela própria fazer arranjos de flores artificiais que usa para enfeitar a sacada. “Como meu trabalho exige muitas viagens (ela é representante comercial de uma grande indústria de xampus para pets) é uma pena, mas não posso ter plantas verdadeiras. Mas minhas flores artificiais ali estão, no meus momentos de inspiração e expiração. Quase sempre levo comigo uma caneca de cappuccino. Minha relação com a varanda é vital”.

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