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José Paulo Bufeli: um homem solidário

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 4 min

Samantha Ciuffa
“Um pai, antes de ser pai, deve ser o primeiro amigo do filho”

Nesta época do ano não é nada fácil falar com José Paulo Bufeli, o presidente da Associação das Entidades de Promoção Social (AEAPS). Explica-se: ele está mais do que envolvido com o evento Viva Bauru, mais especificamente com a Festa do Sanduíche Bauru que se realiza este final de semana prolongado na cidade.

São mais de 20 entidades sociais sob a coordenação da associação e em esquema de voluntariado: todas se revezam para servir nada menos do que 25 mil “Baurus”, o tradicional sanduíche que leva o nome da cidade.

Uma cidade que, por sinal, ele aprendeu a gostar, já que não é bauruense nato e nem veio para cá criança. Nascido em Dois Córregos, criou-se em Ibitinga e, em 1987, foi para Ribeirão Preto, onde viveu dez dos seus 60 anos.

O trabalho na  Companhia Energética de São Paulo (Cesp) o trouxe para Bauru e lá se vão quase 20 anos. Um pouco do muito que já viu e sentiu está compartilhado a seguir.

 

JC – Como nasce o interesse pelo voluntariado, pelo  trabalho social?

Paulo – Acho que são as contingências. O fato de eu estar aposentado me levou a isso. Há o famoso “já que”, conhece?

JC – Como assim “já quê”?

Paulo – As pessoas dizem assim: “Já que você está aposentado faz isso para mim? Faz aquilo?”E assim a gente faz, não pode negar, vão delegando e no fim se trabalha mais do que se tivesse empregado mesmo [risos].

JC – Então, já que pode, entrou no serviço social?

Paulo – Na verdade é até estranho, eu sempre fui de uma área técnica, nunca me preparei para nenhuma atividade social, mas aconteceu. Fui presidente da Creche Berçário Antonio Pereira, que fica na rua Carlos de Campos, na Vila Souto, por quatro anos e meio. De lá até a associação, foi um pulo.

JC – Então foi por acaso?

Paulo – No fundo, não. Como cristão, católico e espiritualista acho que há uma missão a desenvolver. Tudo tem, enfim, um propósito. O “bichinho do social” é, de fato, algo irreversível. Uma vez picado você sempre vai em frente. Fica no sangue. Tanto que eu realmnente não imaginava que uma das coisas que mais me daria satisfação nesta vida seria pedir. Pedir especialmente porque não é para mim. A satisfação é muito maior.

JC – A gente percebe esse amor, esse brilho nos seus olhos, assim como quando fala da família, da sua esposa, seu netinho...

Paulo – Eu e a Enivete (a minha “Té”) estamos juntos há mais de 40 anos. Ela é de Ibitinga também. Namoramos 3 anos e meio e temos 38 anos de casados. E confesso: casaria de novo com ela, se preciso fosse casaria hoje.

JC – Dá a receita para um casamento tão duradouro e com tanta paixão assim?

Paulo – Na verdade não existe receita. Acho que posso dizer uma única coisa: o que garante uma relação é o respeito à individualidade. Existe o “nós”, mas ela é ela e eu sou eu. Um precisa respeitar o espaço do outro. Quando isso acontece é tudo mais fácil. Acho também que há valores como a família, que se perderam. Isso nós temos que resgatar. O mundo seria muito melhor se todos valorizassem a família. Procurei ensinar meus filhos, o Guilherme e o Gustavo, a serem assim.

JC – Falando em filhos... e o neto?

Paulo – Brinco que tenho três amores, três homens. Meus dois filhos e o netinho, o Théo. Temos uma ligação que acredito ser de outras vidas. Agora que ele está morando fora (os pais estão na Suécia), onde ficará até meados do ano que vem, a gente se fala todo dia pelo celular, por um aplicativo. Aliás, tenho uma história para contar sobre a educação de pai e filho.

JC – Que história?

Paulo – É que criei meus filhos de forma diferente. Não criei uma relação de pai para filho, de cima para baixo. Quis deixar um legado diferente. Antes de ser o pai, quis ser o primeiro amigo da vida deles. Acho que consegui. Penso que assim eles têm tudo para terem uma família sólida.

JC – E sobre a nossa Bauru: o precisa, na sua visão, para ser definitivamente grande?

Paulo – Precisa, neste momento, de mais liderança política. Aliás, não é só Bauru, o Brasil. Quem foram os últimos grandes líderes? Tancredo Neves? Ulisses Guimarães?  

JC – O senhor está pessimista, então?

Paulo – Não, não... ao contrário. Somos um país jovem, sou muito otimista. Só que hoje em dia padecemos por não termos passado, por sermos jovens, não termos porque lutar. O brasileiro precisa estreitar mais o vínculo com a terra, com suas raízes, e daí dará o grande salto.

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