Articulistas

As razões do fígado

José Carlos Brandão
| Tempo de leitura: 3 min

Ser ou não ser, velho Hamlet, se esvaziaram de sentido quando o reino da morte se tornou o único a ostentar os estandartes de seus prodígios. Devemos cultivar a desgraça com discrição, que quaisquer laivos de orgulho podem feri-la. Se eu não tivesse fracassado tanto, com o acúmulo de sensações que a desgraça traz, ao contrário da indolência da felicidade, não teria sentido tanto o gosto de viver. O escritor é um mentiroso que finge com a palavra escrita mais sutil, mais elegantemente que os outros homens. Uma obra de arte deve perturbar o espírito até o homem sentir o êxtase da nulidade da existência. O escritor se alimenta de palavras, digere-as, evacua-as. A obra do escritor alimenta o espírito do homem, dá-lhe uma sensação de miséria e soberba, exulta-o, torna-o capaz de sobreviver em meio às suas próprias fezes.


A dor dá uma forma palpável ao universo, antes etéreo como um sonho distante. Qual a distinção entre o mal e o bem? Uma ponte os liga, você está no meio e não sabe de que lado está o mal, de que lado o bem. A loucura de hoje me livra do abismo de ontem e de amanhã. Acabamos chegando à conclusão de que somente é possível raciocinar com o fígado. Não é raro um filósofo, por uma iluminação no cérebro ou no fígado, contemplar extasiado um louco que discursa para a lua. Nem toda a imbecilidade do mundo é bastante para obnubilar a consciência da dor. O humor da hiena que encontramos entre os homens é-lhes a forma da sensibilidade, como a estesia da arte o é para poucos. Rir não é o melhor remédio, mas, quando a dor é tanta, o riso aflora. A volúpia da dor é uma volúpia como outra qualquer e, como tal, deve ser cultivada?


Como o mundo é dominado pela tristeza, nós nos maravilhamos de que, pelo menos hoje, não vamos nos matar. Se nós nos espelhamos nos excluídos, somos uns pobres diabos que agonizam com a menor dor. A palavra é uma bolha de ar e qualquer verdade explode com ela. Um homem ridículo agonizando é o nosso retrato cotidiano. Invejo os que atingiram tal limite de sabedoria que não têm mais nenhuma razão para viver. Somos os eternos imaturos cobiçando as maçãs maduras do vizinho.


Quando chega a maturidade? Certamente quando o universo passa a nos interessar tanto quanto o cio da cachorra do vizinho. Que maravilha não termos responsabilidade nenhuma, sermos frívolos aos olhos do mundo e de nós mesmos. Nenhum homem é tão feliz que já não esteja morto. Homem nenhum crê na verdade, mas não conta nem a si mesmo. Depois do conhecimento da morte, descobri que nada mais me restava conhecer.


(Toda escritura que valha a pena deve provocar, não deve deixar indiferente o leitor. É o que pretendem estas “crônicas” montadas com os aforismos de um heterônimo que criei há uns quarenta anos).


(Dos “Aforismos de Gregório Vaz”)


O autor é colaborador de Opinião, membro da Academia Bauruense de Letras (ABLetras)

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