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Festa é Ouro para o Brasil

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O mundo inteiro, provavelmente, esperava o fiasco. Os principais meios de comunicação espalharam o medo da contaminação por zika e os riscos não desprezíveis para a segurança. A mania nacional de deixar tudo para a última hora desta vez ficou para trás e o Brasil deu “show de bola” na abertura dos Jogos Olímpicos. “Espetacular”, resumiu o The New York Times. Foram quatro horas de festa dinâmica, sem erros e sem acidentes, cheia de ritmos e cores.


O enredo montado por Fernando Meireles, Daniela Thomas e Andrucha Waddington relembrou a história, desde o nascimento do Planeta e do Brasil, até a formação cultural do país. Na sequência, a festa reforçou o universo olímpico com os seus ideais de paz e harmonia entre os povos. Sem cópias. Tudo original, inclusive a Pira Olímpica, pequena, para menor queima de oxigênio na atmosfera. Gisele Bündchen estava deslumbrante no papel de Garota de Ipanema, “no doce balanço a caminho do mar”. “Vinte milhões de vezes melhor que Yesterday”, brincou o britânico Guardian em referência ao tema da festa olímpica de Londres.


A gambiarra desta vez deu certo. Os organizadores fizeram uma festa cheia de energia, orgulho e emoção a um custo baixo e sem ter que abusar da pirotecnia tecnológica hollywoodiana. Celebramos a rica cultura musical do Brasil. Santos Dumont voou, mais uma vez, para provar que os irmãos Wright apenas fizeram uma máquina de saltar. Faltou um pouco de humor, matéria-prima do carioca. Na Olimpíada de Londres, James Bond e a rainha Elizabeth saltaram de paraquedas.  Excelente a ideia de pedir para os atletas plantarem sementes de duas centenas de espécies nativas em tubetes com terra. Vão dar origem à Floresta dos Atletas, na região de Deodoro, Rio, onde 10 mil árvores vão nascer, como contribuição ao Planeta. Méritos para o chefe da cenografia Abel Gomes, o mesmo que há duas décadas cria a árvore de Natal da Lagoa. Ele fez o palco de Frank Sinatra no Maracanã, em 1980, e projetou os altares dos papas que nos visitaram.  


O sucesso é bom para acabar com a onda de pessimismo. O país deve aproveitar o clima olímpico para fazer uma reflexão verdadeira sobre o que quer e para onde ir. Fim da corrupção, valorização do trabalho duro e méritos para quem tem seriam temas a considerar. Desde que adquiridos no jogo jogado. Vale para a economia, para a política e para a vida privada de cada um.


Fiquei de olho na televisão, do começo ao fim da festa, sentindo-me como o conde Afonso Celso que publicou, há mais de um século, o livro “Por que me ufano de meu país”. Êxito editorial, a partir dessa obra a palavra ufanismo passou a denotar o patriotismo acrítico, ingênuo, incondicional. O autor apresentou 11 motivos para os brasileiros se ufanarem, a começar pela tradição edênica inaugurada por Pedro Alvares Cabral. Outro item tinha a ver com o caráter do povo: bom, pacífico, caridoso, ordeiro, sensível, sem preconceitos. Algumas afirmativas continham inverdades. O autor escreveu, por exemplo, que “os ex-escravos se incorporaram à população em perfeito pé de igualdade”. Quanto a considerar a natureza como motivo de orgulho, poderíamos responder como Machado de Assis, que ela não é obra nossa e que, portanto, não nos cabe dela nos orgulharmos. Mas temos que acrescentar que, senão fizemos a natureza, muito a desfizemos.


Afonso Celso inspirou-se no lema norte-americano: Right or wrong, my country. Como disseram no discurso de abertura dos Jogos, “brasileiro não desiste nunca”. Povo e nação só existem devido à realização de grandes obras comuns no passado e da vontade de fazer outras tantas no presente. Quem disse isso foi Renan. Refiro-me ao filósofo francês do século 19, e não ao presidente do Senado (peloamordedeus).


Os brasileiros que julgam não ser este o país de seus sonhos, que acham não haver nada a celebrar no momento olímpico, enfrentam a agitação ruidosa do oba-oba ufanista. Também não podemos maldizer a escuridão. O momento é de profunda autocrítica a busca de novos rumos. Capacidade e criatividade nós temos. Talvez, no futuro, tenhamos melhores razões para nos orgulharmos de nós mesmos na Educação, na Saúde e na seriedade na gestão pública, além de saber fazer festa. Nesse dia distante, talvez deixemos de ser o país do futuro, que hoje desapontaria Stefan Zweig.


O autor é jornalista e articulista do JC

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