Diogo da Rocha Figueira - o Dioguinho - nasceu em Botucatu por volta de 1870 e muito jovem iniciou carreira criminosa, cometendo assassinatos, seguidamente absolvido pelo Tribunal do Júri. Com sua experiência, especializou-se em matar por encomenda, mantendo refúgios na região de Ribeirão Preto, protegido pelos coronéis fazendeiros da Guarda Nacional, tornando-se criminoso temido e procurado. Tocaiado por patrulha policial na barranca do Rio Mogi Guaçu, na região de São Carlos, seu corpo desapareceu nas águas daquele rio e nunca foi encontrado. No imaginário popular e pela fama conquistada durante muitos e muitos anos continuou vivo a ele se atribuindo supostamente algumas dezenas de assassinatos por encomenda sem ser molestado, graças à rede de proteção política que desfrutava.
A “Jardineira do Juca” diariamente fazia o trajeto Araraquara-Taquaritinga e vice-versa por precárias estradas municipais transportando quem quer que acenasse, atingidos pontos nos quais a malha ferroviária não chegava. Certo domingo, pouco antes da jardineira deixar Taquaritinga no trajeto de retorno um jovenzinho assustado com sua pequena mochila tomou assento logo no primeiro banco para iniciar viagem que o levaria até fazenda próxima a Bueno de Andrada, onde contrataria seu primeiro emprego. Beijara pai e mãe bem cedo, engolira almoço horrível num boteco e era o primeiro passageiro da jardineira. Ia aflito, preocupado, com a horrível refeição embrulhando seu estomago e dificultando digestão. O calor da tarde era intenso e enjoativa fumaça de cigarro de palha que vinha de sua retaguarda aumentavam seu mal estar.
Na terceira ou quarta curva do trajeto obedecendo a aceno o motorista recolheu mais um passageiro. Era alto, forte, de meia idade, trajava guarda pó marron e chapéu preto e portava um pacote de papel pardo que deixava a mostra os canos de um carabinote. O guarda pó mal disfarçava volume de revolver atravessado na cintura e o cabo de punhal mantido no bolso interno. Os passageiros acompanharam intrigados o cidadão tomar assento no primeiro banco espremendo nosso jovenzinho em direção à janela. O motorista não cobrou a passagem do novo passageiro provocando estranheza dos demais passageiros. Afinal, seria Dioguinho?
A viagem seguiu em solavancos pela estrada poeirenta e o jovenzinho espremido contra a janela teve acrescido ao seu desconforto bafo de cachaça e forte cheiro expelido pelo corpo suarento do novo passageiro que logo caiu em sono profundo. Foi demais e passou do ponto. Com duas indesejáveis e incontidas golfadas, no vai e vem da jardineira, nosso jovem repentinamente devolveu o almoço e tudo o mais no guarda pó do colega de viagem que dormindo nada percebeu. Os passageiros esperaram pelo desenlace que deveria ser sangrento.
Uma freada brusca despertou o passageiro, perplexo com seu imundo e mal cheiroso guarda pó enquanto o jovem passageiro, com cativante humildade o consolou: - O senhor passou tão mal, mas agora já parece melhorzinho. Que Deus o abençoe, porque a vida é mesmo cheia dessas surpresas. Dioguinho (ou seja lá quem fosse) permaneceu silente, assumido o estrago. A esperteza parece ter salvo uma jovem vida.
O autor é advogado, articulista do JC e escreve a cada catorze dias.