Este era o tema do artigo que li em um outro jornal sobre o idoso, assinado por Contardo Calligaris. Foi um balde de agua fria em minha cabeça; eu que sempre minimalizo o abandono ao idoso, quero mostrar o lado de crítico, sábio dos mais velhos, embelezar o envelhecer, fiquei chocada com alguns parágrafos. A velhice não é um tipo de personalidade e, se for um transtorno, seria reativo: o jeito de cada um reagir à perda da identidade profissional (aposentadoria), à sensação de maior proximidade com a morte, ao luto do casal e dos amigos, que vão morrendo, à perda da saúde, da autonomia. Há idoso que se deprime, se angustia, e quase todos começam a delirar. O idoso tem boas razões para ser paranóico!
Contardo, na verdade, está falando sobre o filme A Viagem de meu Pai, de Philippe Le Guay, que por acaso não está passando em nossos cinemas locais. Continuando na mesma conversa, o autor diz ainda que o idoso enxerga o jovem como alguém que o está empurrando pela saída (do mundo, creio eu), às vezes, sente-se roubado, já que quando se for, as pessoas pegarão suas coisas, relógio, casas... E sempre está desconfiado: “Não sou bobo não, ninguém me passa pra trás”. Ainda não estou morto!
Porém, o autor parafrasea Juliana Juriaguerra do hospital Saint-Anne. “A gente envelhece como viveu. Ao envelhecermos seremos nós mesmos só que velhos! Não seremos pessoas diferentes, seremos nós.” Eu pergunto: como alguém é amado na fase adulta e expulso de casa quando envelhece? Contardo diz gostar dos idosos, admite seus bons sentimentos, só assim nutre a esperança e consegue manter o pensamento e a espera de ser amado e amável, mesmo sendo díficil!
Os idosos seremos nós amanhã. Ao contrário do que acontece com as crianças, sonhamos que elas façam tudo que não conseguimos fazer, acreditamos que o idoso é o fruto de uma espécie de idealização negativa: ele é o que não gostaríamos de vir a ser, é o retrato de declínio do que não queríamos ver! A velhice avançada poderia ser vista com a sabedoria que traz. Sabermos que vamos morrer não nos impede de viver. Ao contrário, só é possível viver com leveza quando sabemos que a vida vai acabar, assim finaliza Contardo.
E eu acredito que a morte não deva ser algo horrível, principalmente quando já vivemos tudo ou quase tudo que a nossa vida nos proporcionou e aprendermos, com o passar dos anos, que a vida é uma viagem, com começo, meio e fim! E que a morte pode ser a verdadeira liberdade da alma, sem ter de carregar um corpo que já não nos serve mais! E mais uma coisa que ia me esquecendo, conforme dito acima, os idosos estiveram presentes em nossas vidas (pai, mãe, sogra, sogro), só que eram pessoas novas. Por que tanto sofrimento, já os conhecemos, por isso o idoso não existe. É uma fase da vida, o que nos assusta é que trata-se da última fase. E, por isso mesmo, devemos abraçar, respeitar e amar quem esteve conosco nessa linda viagem, que é a vida!