O brasileiro admite que organização nunca foi o seu forte, mas detesta que pessoas de fora façam pouco caso da “nossa” bagunça. O episódio do alegado assalto a Ryan Lochte, depois de uma noitada com outros três nadadores, inflamou os ânimos no Brasil e nos Estados Unidos e quase acendeu o rastilho de um conflito diplomático. A sucessão de depoimentos contraditórios das supostas vítimas levantou suspeitas. O vídeo da portaria da Vila Olímpica mostra os atletas com seus relógios, celulares e tênis de grife, objetos do desejo de qualquer malandro de morro.
A polícia carioca foi fundo na investigação e restabeleceu a verdade. Nessa altura, a imprensa norte-americana e europeia desancavam o país e responsabilizavam os organizadores pela escolha do Rio, cidade reconhecidamente violenta. A história tem um quê de novela. Os produtores já imaginavam uma série policial com o herói Ryan Lochte, detentor de nove medalhas olímpicas. Uma espécie de Adônis, de cabelos pintados de azul. Os atletas de algumas modalidades olímpicas superaram atores e atrizes que outrora detinham quase que exclusivamente o direto à condição de sex-symbols.
Corpos e movimentos em competição têm uma expressa eloquência patética. Calendários foram editados em vários países, no melhor estilo Pirelli, com fotos de atletas de ambos os sexos em nus pousados. Lochte tem contratos que superam R$ 30 milhões anuais com a Ralph Lauren e Speedo. O barão Pierre de Coubertin, quando reviveu os Jogos Olímpicos em 1896, tinha como divisa o amadorismo no esporte. “Mente sã em corpo são”, era a máxima emprestada a Juvenal (Sátiras, século I d.C.). Hoje, os Jogos Olímpicos são supercampeonatos, um espetáculo de fama e muito dinheiro. O nadador envolvido na trama acaba de contratar um “gerenciador de crise”, profissional especializado em “limpar” o nome do figurão caído em desgraça. É o mesmo de Justin Bieber, o bad boy da música pop americana, que está sempre aprontando.
Reconheço que os banheiros dos nossos postos de combustíveis fedem. Têm um cheiro exótico de urina com pinho sol. Mas nenhum estrangeiro tem o direto de mijar fora do vaso e, muito menos, quebrar o espelho já remendado. Nos altos escalões, aceitamos que o juiz Sérgio Moro mande grampear as conversas de Dilma com o Lula, mas não aceitamos, jamais, que os EUA tenham espionado membros do governo do Brasil, no âmbito da fuga de informações dos Wikileaks. Em represália, a presidente hoje afastada cancelou uma visita de estado ao colega Obama.
A impressão é que os enviados especiais para coberturas jornalísticas não se conformam com o sucesso das Olimpíadas do Rio. Debocharam da piscina esverdeada. Criticaram nossa maneira de torcer com vaias mesmo nas competições de esgrima, tênis de mesa e golfe. Vaia é a nossa maior instituição, vinda da cultura do futebol. Valeu até para jogo de xadrez, quando Mequinho disputava o mundial. O Le Figaro publicou que o baiano Isaquias, medalhista de ouro na canoagem, beneficiou-se de mandingas do candomblé.
O mariliense Thiago Braz, ouro no salto com vara, teria encarnado o espírito da águia dos caingangues para voar mais alto do que o francês Renaud Lavillenie. Ontem, no Wall Street Journal surgiu mais uma teoria conspiratória: falha na construção da piscina olímpica permitiu a criação de uma corrente em um dos lados que influenciou na velocidade dos nadadores durante as provas. Segundo o jornal, as raias 5 a 8 propiciaram aumento de velocidade. As raias de 1 a 4, tempos maiores. Eu, que nada entendo de hidráulica, me pergunto: se a corrente a favor ajuda na ida, não prejudica na volta? Se houve beneficiado foi só na prova de 50 metros.
O New York Times criticou até o ar do biscoito de polvilho vendido nas praias cariocas. “É ar que se transformou em uma bolacha em forma de donut, sem gosto. Estalar uma em sua boca é como se seus dentes estivessem numa festa para a qual a língua não foi convidada”. A frase é literária. Mas biscoito de polvilho tem gosto de biscoito de polvilho. Americano põe essências nas chips para saber a bacon, cebola.
Você limpa a casa, esconde a bagunça nos armários, joga a sujeira para baixo do tapete e o gringo vem aqui falar mal do Biscoito Globo? Reclamaram do tamanho e da modéstia do copinho de café, minúsculo diante dos baldes de cháfé americano. Para não parecer tão impertinente, o Times elogiou o pão de queijo, “Fáceis de mastigar, quase cremosos por dentro”, e os churros, “cremosos e sublimes”. O açaí, esse conquistou os gringos de paladar refinado. Caipirinha? O secretário de Estado John Kerry tomou quatro. O mundo ainda vai pedir para repetir as Olimpíadas no Brasil.
O autor é jornalista e articulista do JC