Articulistas

Envelhecendo

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Ainda que sob protesto, vou cumprindo (tenho alternativa?) o mandamento natural do envelhecer. Só meus companheiros de idade -   ninguém mais - sabem como a barra vai pesando a cada quilômetro rodado. E assim, muito a contragosto, vamos todos nós nessa estrada malvada que, diferente das demais pedagiadas, não nos oferece  placa de retorno, tampouco de redução de marcha. “Eh, oo, vida de gado, povo marcado, povo feliz”, disse o Zé, que também é Ramalho. Assim, caminha a boiada. Assim, caminha a humanidade.


Tem comprimido pra isso? Analgésicos nunca nos faltarão. Pra cada dor, um doril. É o caso da literatura de autoajuda  que, tentando  nos consolar,  promete-nos a  “sabedoria da melhor idade”, cuja posse de fato e de direito contemplaria apenas os mais vividos. De certa forma é verdade, não há como negá-lo.  Eu mesmo venho aprendendo que, quanto mais rodo nessa estrada, mais perdas vou contabilizando.  Um exemplo dolorido: os prazeres da carne. Calma, não me interpretem mal, estou falando apenas de um suculento filé vermelho, já ausente do meu prato por força da creatinina que  subiu mais do que devia. Subiram também o mau colesterol, os triglicerídios, a glicose, o ácido úrico... Muita coisa subindo, outras nem tanto, justo nesse momento que é, declaradamente, de descida. Reconheço que, com tudo isso, ando casmurro e revoltado.


Hoje pela manhã, todavia, o jornal me animou. Agora, não é papo motivador, não é mais essa coisa de ajudar coitado,  mas  estudo científico divulgado não menos  pela prestigiada  Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Depois de trabalharem com 3.635 respeitáveis senhores e senhoras de mais de 50  anos, os competentes pesquisadores constataram – santa notícia - que ler diariamente aumenta a longevidade. O estudo denominado “A Chapter a Day” (Um Capítulo por Dia) garante que  há uma considerável vantagem daqueles que leem pelo menos 30 minutos por dia quando comparados a não leitores. O hábito de ler teria reduzido em 20% os riscos de morte nas pessoas  acompanhadas pelos pesquisadores.


Como não  me animar, se não faço outra coisa o dia inteiro senão ler? Na mala das minhas férias anuais, antes das bermudas, entram os livros. Escrevo diariamente também, mas sobre isso infelizmente  nada disseram os estudiosos. Espero outra pesquisa, quem sabe? Não sou bom de matemática, mas se, por força do trabalho, leio  oito horas por dia e não apenas os exigidos 30 minutinhos,  concluo que me sobram ainda sete horas e meia  diárias para investir  nos meus quilômetros de rodagem. Cara, isso é uma puta eternidade! Tenho, agora, sem transplante, um hodômetro novo, não é maravilhoso? Percebo que, neste momento,   tudo fica bem explicado:  a leitura dá um “chega pra lá” nos neurônios sedentários, intensificando as sinapses e processando  uma intensa ginástica cerebral. Disso tudo, acaba  resultando aquele  bem estar endorfínico, puro prazer,  quando chegamos ao final do texto. Então vem aquela irresistível vontade de perguntar à companheira página: foi bom pra você?


Fico aqui com os meus botões minhocando outra questão: o tipo de leitura. Será que ler filosofia ou mesmo poesia faz viver mais do que ler  letra de funk?  Por justiça, deveria, mas não sei não... Agora ler livros de dieta e segui-los no dia a dia, isso com certeza ajuda muito. A verdade é que o estudo é democrático,  não faz qualquer diferenciação, fala em ler apenas, pouco importando a matéria lida. A exigência única é bunda na cadeira e olho no texto, assim a vida rodará muito mais. Os livros estão aí, é só pegar e acelerar. Vamos nessa?


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras curso_romag@uol.com.br

Comentários

Comentários