Preconceito vem de longe...
O preconceito expressa-se em um juízo de valor que considera o outro ou um grupo como inferior a nós em algum aspecto: física, moral, social ou intelectual. O ato preconceituoso, portanto, sustenta-se pela crença na desigualdade natural entre os seres humanos e isso implica em considerar-se como possuidor da verdade absoluta e como padrão de comportamento de referência para todos. Daí porque, na relação de intolerância, o outro não é considerado verdadeiramente um “outro” e sim um alguém semelhante, porém inferior ou um desvio à norma, uma cópia imperfeita de um modelo único. E isso passa a justificar a exclusão, a dominação, a exploração e o extermínio do outro.
Na história, vários fatores conduziram os povos à intolerância: sobrevivência, poder político, acumulação de riquezas, dominação cultural, dogmas religiosos e verdades filosóficas. Sobre esse último aspecto, retomaremos algumas ideias, pontuando aqui e ali a história do pensamento ocidental.
Os conceitos de padrão, modelo, de desvio da norma – na civilização ocidental – foram concebidos no interior do pensamento metafísico grego. Platão, por exemplo, fala de um “Mundo das Ideias”, onde residem as essências puras de todos os seres que existem no mundo material. São formas perfeitas e imutáveis das quais os seres materiais participam como cópias umas mais e outras menos perfeitas. Desta realidade também o homem participa.
Assim, Platão vai conceber da ideia de desigualdade natural entre os homens. E num esforço de estabelecer o ideal de justiça entre os desiguais, ele constrói, no diálogo República, uma sociedade piramidal cuja base seria composta por pessoas que naturalmente se identificam com o instinto de sobrevivência material (artesãos e agricultores); na camada intermediária estariam aqueles que desenvolveram sentimentos mais nobres como a coragem dos soldados; por fim, o topo é o lugar dos mais evoluídos racionalmente (os filósofos) e que, portanto, governam a sociedade com sabedoria e justiça. Todos estariam felizes pela identificação de suas aspirações com a sua diferenciação natural.
A visão metafísica, na esfera social, explicita a ideologia que defende a tese de que as desigualdades sociais são praticamente consequências das desigualdades naturais, ou seja, suas causas estão na esfera do indivíduo, como o caráter, a competência, o esforço, a inteligência etc. Este é o campo fértil para germinar a erva daninha não somente do preconceito social, mas da consciência ‘tranquila’ daquele que considera sua posição social superior apenas como conquista do esforço pessoal. Foi este também o álibi filosófico e histórico ocidental para valorizar mais o trabalho intelectual do que o físico, esse destinado aos inferiores, aos condenados e àqueles que nem eram considerados propriamente humanos, os escravos.
Do seleto grupo de humanos também a mulher estava excluída, uma vez que a racionalidade metafísica identifica-se com o masculino e, portanto, o homem é a expressão mais fiel da forma perfeita de ser humano do que a mulher.
Outras culturas antigas, também guerreiras, criaram suas justificativas ideológicas para o domínio masculino. Essa condição de inferioridade feminina, constatada abundantemente nos textos filosóficos e literatos da Grécia antiga, foi aprofundada na Idade Média com a presença cultura judaico-cristã. E aquelas mulheres, como Joana d’Arc, que desafiaram os padrões masculinos, foram presas torturadas e queimadas em praça pública.
Assim, na cultura ocidental, germinada no pensamento metafísico grego, as formas ou essências absolutas constituíram-se referências para justificar filosoficamente a exclusão de todos aqueles que, por motivo físico ou ideológico, não se enquadram nelas.
Estes padrões absolutos estenderam pela história ocidental até a modernidade europeia, tendo no século XVII uma expressão exemplar: o iluminismo de Hegel. A mesma razão moderna emancipadora das trevas da ignorância – fonte das violências – paradoxalmente construiu padrões humanos que justificaram ao europeu a dominação, a exclusão e mesmo o extermínio dos povos colonizados.
Em Lições sobre a filosofia da história universal, Hegel desfila uma lista de argumentos metafísicos, buscando justificar a supremacia da civilização europeia. E esse processo civilizatório da humanidade seguiu um percurso geográfico que se inicia na Ásia e culmina na Europa, mais especificamente com os povos germânico, francês e inglês. É o curso natural do próprio sol.
A civilização europeia moderna é, portanto, a expressão máxima da Razão e a luz do sol, sua grande metáfora. Fica à margem do caminho “iluminado” o restante da humanidade: os orientais, os povos africanos, os latino-americanos, os povos ao norte da Europa e, a rigor, a Espanha e Portugal.
Tendo como base a identificação hegeliana do processo civilizatório com a identidade cultural europeia e o contexto histórico do século XVIII, podem-se inferir as características básicas do padrão de ser humano e referência para toda a humanidade. Ele é europeu, branco, masculino, adulto, esclarecido, produtivo, proprietário e cristão. Daí as diversas formas de preconceitos e de discriminações em relação àqueles que não se encaixam nesta forma: o indígena, o negro, o asiático e mesmo a mulher, o adolescente, a criança, o idoso, o formalmente inculto, a pessoa com deficiência, em situação de pobreza, e o não cristão...
Quantos realmente se enquadram nos padrões metafísicos da cultura ocidental? E por quanto tempo na vida?
O autor faz parte do Observatório de Educação em Direitos Humanos / Unesp - Conselho Municipal de Direitos Humanos