A semana foi de tirar o fôlego. E, novamente, escancarou as divisões do País. Mas foi um certo “impeachment de coalização” que o Brasil inventou para chamar de seu, conforme definiu a economista Monica de Bolle. Ela se refere, claro, ao fato de Dilma ter sido cassada, mas sem perder seus direitos políticos.
Diria que foi, no mínimo, uma decisão esquizofrênica. Afinal, por coerência, ali na mesa era, sim, oito ou oitenta. Uma coisa atrelada à outra. Mas eis que surge o tal fatiamento quase que como um final depois do final. Vamos combinar: ficou esquisito.
Mas... é Brasil. Que tira uma presidente pelo “conjunto da obra” (obra fraca no exercício da governança, diga-se), mas isso nunca esteve efetivamente em votação. Viramos parlamentaristas ao votar. E, encerrada a peleja, voltamos ao nosso presidencialismo errático, volúvel, levado para onde os donos de mandatos bem desejarem.
Ocorre que incompetência não deve ser combatida com desapego à rigidez da lei - a não ser que o “conjunto da obra” justifique tal medida. Por via das dúvidas, e para que outro não caia nessa, o Senado acaba de sancionar lei que meio que libera as tais “pedaladas fiscais”. Vai que...
Já disseram, e concordo, que ainda precisaremos esperar surgir toda uma nova geração tomar as rédeas do cavalo político para corrigir a marcha. Até lá, se é para derrubar o cavaleiro (ou a amazona), a coisa vai na base do coice mesmo.
Bem, sobrevivemos. Que o novo-velho governo do momento acerte suas mãos brancas e masculinas na retomada econômica; que a velha-nova oposição aprenda com seus erros; que corrupção vire cinza, seja ela vermelha ou azul; que não desistamos.
Acordei com “Tente Outra Vez” na cabeça. Poderia até ser hino desses tempos que correm e atropelam. Mas é preciso acreditar, pois a “água viva ainda está na fonte”. Porque “temos dois pés para cruzar a ponte”. E nada, verdadeiramente, ainda acabou.
De fato, o brasileiro sempre tenderá a dizer que “a vitória não está perdida”. Otimismo tão necessário quanto Deus, amor, ar e boas amizades. Tentemos, portanto, outra vez: sonhando com um governo decente, realizador, socialmente sensível e criativo nas soluções. Se assim não foi o que passou e talvez não se torne no que aí está, força: não basta “ser sincero e desejar profundo”, mas virá. É nossa vocação e nossa maldição: tentar, incontáveis vezes, preservar o fôlego da esperança.
O autor é editor executivo do JC