O Brasil sedia no mês de setembro as Paralimpíadas Rio 2016. Este evento ocorre desde 1988 no mesmo país da realização das Olimpíadas, e é destinado a atletas com deficiências físicas. Nas Paralimpíadas Rio 2016, o Brasil possui 286 atletas inscritos. Deste contingente, 101 deles (35%) sofreram algum tipo de acidente envolvendo automóvel, moto, atropelamento, armas de fogo ou de trabalho. Os dados foram produzidos pela Agência Brasil, a partir de informações disponibilizadas pelo Comitê Paralímpico Brasileiro.
Um fato chama a atenção. Dentre os atletas paralímpicos brasileiros, 52 deles, 18% do total de atletas, foram vítimas de acidente de trânsito, como ocupantes de automóveis, de motocicletas ou como pedestres. Segundo a Organização Mundial de Saúde, com dados considerados até 2013, o Brasil ficou na quarta colocação entre os países do continente americano com mais mortes em acidentes de trânsito, ou seja, 23,4 mortos para cada grupo de 100 mil habitantes. O Brasil está no G4, infelizmente, e só “perde” para Belize, República Dominicana e Venezuela. Por que será?
Em 2015, foram pagas pelo DPVAT-Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre mais de 42 mil indenizações por mortes no trânsito brasileiro. Destas, 54% das vítimas eram condutoras, 27% pedestres e 19% eram passageiras de veículos motorizados. Das quase 23 mil indenizações relativas a condutores, 64% eram motociclistas. O número de indenizações pagas por invalidez, em 2015, foi de quase 516 mil. Destas, 64% eram de condutores de veículos motorizados, 18% pedestres e 18% passageiros. Dos 331 mil condutores que adquiriram invalidez, 91% eram motociclistas.
Outro dado alarmante! Do total de indenizações pagas pelo DPVAT, em 2015, considerando todos os veículos, o automóvel respondeu por 19%, enquanto que as motos corresponderam a 76%. No entanto, as motos representam apenas 27% do total da frota brasileira. Pode-se afirmar, com certeza, que o trânsito é um grande “celeiro” de atletas paralímpicos. Melhor fosse se o país produzisse nenhum. Mas, parece que isto não está acontecendo no Brasil. Não se vê campanhas, não há ações específicas. As motos estão matando e produzindo cidadãos com invalidez que, além da dor das famílias envolvidas, implicam em gastos sociais elevadíssimos. Mas, ninguém faz nada! Tapam o sol com a peneira. Se fingem de cegos!
Muitos acidentados conseguiram através de meios modernos sua recuperação e, principalmente, devido às suas extraordinárias forças de vontade e determinação, se tornarem atletas paralímpicos, o que representa um grande orgulho para a nação brasileira. No entanto, tantos outros ficam entrevados em um leito. Algo precisa ser feito.
O autor é mestre e doutor em Engenharia de Transportes, docente da UFSCar, diretor de Mobilidade da Assenag e membro do Conselho Diretor da ANTP