Formavam um casal religioso nos retos caminhos da salvação. A paz conjugal assim se mantinha. Até que um dia, melhor dizendo, uma noite, na intimidade dos lençóis, a mulher, querendo mais, assustou o marido, pedindo que ele fizesse algo ousado, coisa que fugia completamente da comportada cartilha do casal. Primeiro, o susto, brutal pancada. Depois, a pergunta desengolida: “Com quem, mulher, você aprendeu isso? A resposta: “Vi num filme, marido.” Claro que a resposta da mulher nem de longe apagou a dúvida nascida naquele momento. Uma semana depois, na missa dominical, ao receberem a comunhão, o marido calculista foi estratégico: “Mulher, agora que você está com o corpo de Cristo em seu corpo, me responde: foi com algum homem que você aprendeu aquilo? Li essa história há um bom tempo em “O Aprendiz de Liberdade”, do psicanalista Franciso Daudt da Veiga. Agora, resolvi narrá-la por força do tema.
É exatamente assim. Quando menos se espera, explode a dúvida gerada pelo ciúme. A interrogação Já nasce cortando, ferindo fundo. Até aquele momento, o marido vivia em paz, mas a partir dele o pobre enciumado começa a conviver com a possibilidade de que algo terrível lhe tenha acontecido pelas costas, assim como uma rasteira inesperada ou carteira subtraída sem que se saiba onde e quando. Depois, a tortura passa a comandar a imaginação que, excitada, atiça a memória. Pronto, uma penca de lembranças vem à tona, todas querendo fazer sentido: ah... aquele telefonema bruscamente cortado, então foi por isso que..., agora faz sentido aquela explicação nervosa..., ah... o tempo do relógio mal justificado, a desculpa esfarrapada... Cada flash espocado pela memória é sinal dolorido, peça ansiosa do quebra-cabeça buscando encaixe e sentido. O ciúme corre nervoso atrás da prova, quer jogar na cara do traidor a descoberta irrefutável. Como é torturante entrar no segredo do parceiro...
Por mais que o pobre enciumado tente fugir das marteladas que lhe castigam a cabeça, nada lhe desviará o pensamento. Começando a morder, o ciúme não mais sabe parar. Rubem Alves, numa de suas crônicas, fala de uma cena que nos mostra quão absurdo o ciúme chega a ser. Cita o caso de um marido que se torturava com o ciúme do livro que a esposa tão prazerosamente lia. Como explicar aquele sorriso de satisfação? Se ele, marido, não estava dentro do livro, que alegria era aquela? Então, era o livro e não ele que a fazia feliz. Aliás, não faltam entre nós os mais estranhos objetos provocadores de ciúme: o computador dele, o carro novo, o celular dela, enfim qualquer coisa que possa ameaçar o pretenso direito de posse. O ciumento não suporta a ideia de perder o que julga propriedade, ainda que a “coisa” seja humana.
Estranho e contraditório é o ciúme. Por causa dele, muita gente foi agredida, cicatrizada no corpo e na alma e, até mesmo, assassinada. Ao mesmo tempo, é pimenta que tempera e incendeia a sexualidade dos amantes. Isso mesmo, afrodisíaca pimenta. Uma cena de ciúme pode produzir momentos “calientes”. Afinal quando isso acontece, é preciso deixar bem claro quem ainda manda no pedaço.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras curso_romag@uol.com.br