Tribuna do Leitor

Ele ainda não teve o que merece!

Rafael Moia Filho
| Tempo de leitura: 3 min

“As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras.” Friedrich Nietzsche


O deputado Eduardo Cunha teve seu mandato cassado na noite de 12 de setembro de 2016, numa votação histórica que registrou ao final 450 votos favoráveis contra apenas 10 votos contrários. Cunha viu ser dizimada em poucos meses sua base fiel, conhecida como Centrão. Do auge de sua atuação à frente da Câmara dos Deputados, até o declínio de sua carreira com a contumaz cassação aplicada por seus pares, percorreu um caminho de denúncias, suspeitas e intrigas provocadas por sua arrogância.


Sua carreira política começou quando trabalhou na campanha eleitoral de Eliseu Rezende (PDS-MG), na eleição de 1982, e de Moreira Franco (Atual desafeto), candidato ao governo do RJ em 1986. Em seguida, foi convidado por ninguém menos do que Paulo César Farias a se filiar ao Partido da Reconstrução Nacional (PRN) e integrar o núcleo da campanha de Fernando Collor de Mello, em 1989.


Atuou como tesoureiro da campanha no Comitê do RJ e em troca, após a eleição de Collor, foi nomeado, em 1991, presidente da Telerj. Não demorou muito tempo para que o TCU constatasse irregularidades na contratação de servidores sem concurso público, tratamento privilegiado a determinados fornecedores, falhas e fraudes em licitações. Sem contar o escândalo de superfaturamento quando foi descoberto um esquema que Cunha havia assinado de U$ 92 milhões entre a Telerj e a NEC do Brasil.


Em 1995, ingressou no Partido Progressista Brasileiro (PPB). Em 1996, ele e outras 41 pessoas foram autuadas em um dos processos que investigava o Esquema PC, chegando a ser réu de um dos processos. Todavia, o TRF concedeu um Habeas Corpus e trancou a ação contra Cunha. Sua primeira aventura política real foi em 1998, quando se lançou candidato a uma vaga de deputado estadual pelo RJ, mas teve apenas 15 mil votos e não foi eleito. Sua amizade com Anthony Garotinho possibilitou que fosse indicado a presidir a Companhia Estadual de Habitação do RJ. Ficou apenas seis meses e foi afastado em virtude de denúncias de irregularidades em contratos sem licitação e favorecimento de empresas fantasmas.


Percebemos que o mesmo modus operandi da Telerj voltava a acontecer na CEHAB. Em ambas, Cunha era o presidente das empresas. Coincidência? Em 2001, o TCE/RJ confirmou as diversas irregularidades nas licitações da CEHAB, entre elas a adulteração de certidão negativa de tributos estaduais. Entretanto, não foi punido.


Para tanto, assumiu uma vaga de deputado estadual, o que lhe garantia imunidade parlamentar nas investigações em que estava envolvido. Finalmente, em 2003, troca novamente de partido e vai para o PMDB (berço de tantos suspeitos de corrupção).


Foi eleito em 2002 e reeleito em 2006 com 130 mil votos. Neste momento, percebemos que os eleitores não pesquisaram a vida do candidato ou não sabem mesmo em quem votar com consciência e seriedade. De lá para cá, atuou como sempre quis, livre, seguro por sua imunidade parlamentar, o que lhe permitiu transitar junto a empresas dos setores de energia, telefonia e construção obtendo vantagens que resultaram nas propinas que ele tratou de enviar para paraísos fiscais e para a Suíça.


Muitos brasileiros pensam que o único crime de Cunha tenha sido mentir na Comissão de Ética da Câmara. Ledo engano, contra ele existem vários processos em andamento ou parados na Lava Jato, STF e em muitas outras varas da Justiça.


Sua cassação não é nada, esse elemento precisa ser julgado, condenado e punido rigorosamente pela Justiça brasileira como um dos elementos mais nocivos que nossa política já produziu nos últimos 40 anos. Sua trajetória, em parte descrita acima, é apenas um leve aperitivo do que Cunha é capaz de fazer quando tem poder e imunidade.

Comentários

Comentários