| Alex Mita |
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| Maria José e Santo Mauro ao lado do vestido de noiva do casamento |
Uma mostra batizada de Exposição de Casamentos Memorial Alfredo Guedes tirou do baú fotografias com mais de 50 anos. Imagens que revelam muito mais do que uma simples união, mas a forma como as pessoas viviam, se relacionavam e encaravam o evento. Na busca do material para montar o ‘museu’, há dois anos, a monitora educacional do Memorial Alfredo Guedes, Conceição Langone, percebeu que os moradores tinham um acervo fotográfico grande e muitas histórias interessantes.
“Montamos a exposição, porque encontramos além das fotos, pessoas dispostas a dar seus depoimentos, louças que eram presentes de casamento. Vestido, roupas de cama e muitas lembranças. No contato com as pessoas, que se casaram em Alfredo Guedes, notamos que elas ficavam felizes de lembrar a data que marcou suas vidas. Isso nos motivou a montar a exposição. Achamos que chamaria público ao Memorial. Marcamos a abertura para agosto, época em que se realiza a festa do padroeiro. Criamos um evento dentro da festa que conta com churrasco, procissões etc”.
Segundo ela, o evento cultural promoveu a interação entre a comunidade no local. “A identificação dessas pessoas com a própria história de vida nesse lugar. Elas se sentiram valorizadas e percebem que compõem a história. Isso é importante para nós, como agentes de cultura. As pessoas procuram o memorial, se identificam com a história do lugar”.
No distrito há duas igrejas, a de São Benedito e a do Senhor Bom Jesus. A localização da última e sua escadaria foram itens que fizeram a diferença na escolha para a realização dos casamentos de famílias tradicionais, algumas da época áurea do café. “Alguns fazendeiros do café fizeram o casamento de seus filhos na igreja Senhor Bom Jesus. Ela é central e chama mais a atenção pela escadaria”.
Os vestidos de casamentos realizados na década 40 e 50 das filhas dos fazendeiros normalmente eram confeccionados em São Manuel. “Tinha um internato de moças. Elas aprendiam a costurar. Dali saíam os vestidos mais caprichados. Eram feitos por elas sob a orientação por uma professora. Eram vestidos primorosos na confecção. Com rendas, aplicações com bordados, feitos em cetim”, descreve.
Conceição explica que as fotos de registros das cerimônias geralmente primavam pela seriedade das expressões. “Isso era para demonstrar a seriedade do compromisso assumido. Mesmo nas fotos com os padrinhos e parentes as faces mantinham-se fechadas. Apenas alguns mais ousados transgrediam com um leve sorriso e nada mais.
Os retratos mostravam a maioria dos casais em pé na frente do altar ou no estúdio dos tradicionais fotógrafos. Tem registro de casais que foram dias depois da cerimônia, devidamente trajados de noivos até o estúdio para registrar em foto o enlace. Isso mostra a dificuldade de transporte dos mesmos no dia da cerimônia. As fotos eram ofertadas aos padrinhos e parentes mais próximos, que iam com uma singela dedicatória dos noivos”.
Só na década de 70 surgiram os álbuns de fotos, onde não só os noivos, mas convidados, a festa e outros detalhes eram registrados.
Distrito já teve casamento duplo
O matrimônio do casal Nelson Pascualinotto e Ercilia Rossi foi junto com o de Maria José e Santo Costa na igreja Senhor Bom Jesus de Alfredo Guedes
| Fotos: Alex Mita |
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| Agente cultural de Lençóis, Conceição Langone organizou exposição de casamentos no Memorial no distrito de Alfredo Guedes |
Santo Mauro Giorgette Costa tem 76 anos e lembra com alegria e orgulho a primeira vez que via sua mulher no Distrito de Alfredo Guedes. “Eu morava perto da linha de trem Sorocabana, do lado de baixo. Estava sentado na área da casa junto com minha mãe quando uma mocinha da cintura fina passou do lado alto da linha. Eu falei para mãe: opa de onde vem vindo isso aí? Minha mãe disse que ela não era para meu bico, porque a moça já tinha namorado. Eu disse que era dessas que eu gostava”.
Ele começou a rodear a moça que era Maria José Pascualinotto Costa, hoje com 68 anos. “Ela largou do namorado. Eu puxava cana com um caminhão e passava pelo distrito. Ela trabalhava na casa do Jorge Pinheiro e da dona Ruth, cuidando da filha deles, a Miriam. Eu escrevia os versinhos de amor no gomo de cana e jogava no quintal da casa em que ela trabalhava. Na volta da usina, com o caminhão vazio, ela estava no portão. Era minha maneira de comunicar a ela que estava indo e que voltava logo. Era assim todos os dias”, conta Mauro.
Foi assim que começou o namoro do casal. Maria José, conhecida como dona Zezinha, frisa que o casamento aconteceu no dia 19 dezembro de 1964. “Eu nasci, cresci e casei aqui. O dia da noiva era muito diferente do que é hoje. Só para se ter uma ideia, no dia do casamento eu e o noivo fomos colher flores para decorar a igreja. No sítio da família dele tinha folhas de banana macaco e palmas. A professora Amélia Benta do Nascimento de Oliveira pintou as folhas de purpurina e com as palmas e uma bolas de Natal, ela decorou a igreja”.
Meia hora antes do casório, dona Zezinha teve o cabelo arrumado. “Foi a Clarice Balse que colocou o vestido e a grinalda em mim. O vestido foi comprado em São Paulo pela dona Cotinha. Ela veio em casa, tirou as medidas e meu pai deu o dinheiro. Eu não escolhi o vestido, ele veio e serviu certinho. Eu adorei. Não teve que fazer nenhum ajuste. Naquela época não tinha escolha. O sapato eu comprei em Lençóis Paulista. O terno do noivo foi feito sob medida pelo alfaiate Alfredo de Lençóis Paulista. No dia do casamento o noivo trabalhou, buscou as flores, ajudou a decorar a igreja e depois tomou um banho para casar”.
Foi um casamento duplo. O irmão da dona Zezinha, o mais velho também casou no mesmo dia e na mesma hora. “Imagina a casa da mãe como ficou com dois casamentos às 16h. O padre veio de Lençóis para a celebração. Uma pequena recepção foi oferecida aos padrinhos na casa do pai do noivo. Teve um grande baile, no clube da cidade”.
A maioria dos moradores de Alfredo Guedes estavam presentes. “A música foi da sonata que está guardada e será doada para o memorial. A noiva morava de um lado da igreja e o noivo de outro. Nós saímos de casa a pé e fomos para a igreja. Atravessei a rua vestida de noiva e ele de noivo”.
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Vestido está na exposição
O vestido da dona Zezinha foi guardado com muito carinho em sua casa. Quando mudou para Lençóis, ela o levou. Porém, no verão passado quase que ele foi destruído. “Ele foi dobrado e guardado durante todos esses anos. Em Lençóis, onde moro atualmente, teve uma enchente que atingiu minha casa. Quando ergui a sacola do vestido, vazava barro. Deixei secar e depois de lavado, ele ficou lindo de novo”, conta.
Namoros e noivados
Era tradição muitos casais serem formados pelos pais e indicação de parentes, sendo comum o casamento entre primos, tios e sobrinhas e vice-versa, pois precisavam preservar em família a herança conseguida com muito trabalho. Os namoros correspondiam a visitas do moço à casa da moça, onde muitas vezes a conversa, ou mesmo o silêncio era acompanhado pelos pais ou um dos irmãos menores que era convocado para a função.
Com horário de chegada e despedida previamente combinada na ocasião em que o rapaz pedia permissão ao pai para namorar a moça. Tudo na casa precisava indicar que a moça era e tinha família firme na moral e bons costumes. Encontros em bailes, festas, cerimônias religiosas e mesmo em funerais eram sempre na presença de outras pessoas.
O noivado era um momento que, em geral, acompanhava uma refeição, como almoço de noivado, onde o noivo apresentava a aliança e as mesmas eram trocadas, ficando na mão direita até o casamento que nesta ocasião era marcado.
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| Quadros com fotos de casamentos estão na exposição |
Viagens de núpcias não eram comuns
A viagem de núpcias foram criadas com o objetivo de criar tranquilidade ao casal para que longe dos familiares pudessem se conhecer e fortalecer laços para a nova etapa, a vida conjugal. Os namoros e noivados eram muito vigiados pelos pais e irmãos que recebiam essa função de acompanhar as visitas do noivo durante o namoro, então cabendo uma aproximação mais íntima somente depois da consagração.
Alguns casais saíam da igreja direto para a estação de trem, já prevendo os horários do casamento com as partidas para a capital. Ou para alguma cidade com águas termais, especialmente Poços de Caldas. As viagens não eram regra. Alguns casais permaneciam residindo com os pais de um dos noivos.
Afinidade fez irmãos casarem no mesmo dia
O casamento de Nelson Pascualinotto e Ercilia Rossi foi junto com o de Maria José e Santo Costa. Os irmãos Maria José e Nelson escolheram casar juntos porque tinham muita afinidade entre si. O vestido de Ercilia foi encomendado pela costureira Albertina Sonego. O pároco que realizou a cerimônia foi o padre João. O casamento do civil de Santo e Maria José foi realizado por Adão Francisco de Toledo e de Nelson e Ercilia, pelo Santo Mauro que exercia a função de juiz de paz.
Como os noivos Maria José e Nelson moravam nas casas em frente à igreja foram a pé para a mesma. O noivo Santo também. Ercilia morava no sítio e veio de automóvel. Vieram convidados de Areiópolis, São Manuel e São Paulo. Todos diziam: foi o casamento do ano pois dois irmãos no mesmo dia. O fotógrafo que registrou essa união foi o Ângelo fotógrafo famoso de Lençóis, fotos essas em preto e branco.
Farto churrasco marcou a união
O casamento de Antônio Benedito Justo e Maria e Carmem Dutra foi realizado na igreja Nossa senhora Aparecida, em Aparecida de São Manuel no dia 8 de janeiro de 1961. A festa foi em Fartura de Cima de propriedade de João Batista Dutra, em Alfredo Guedes. Após a cerimônia religiosa, os convidados foram recepcionados com um churrasco e muita comida, feita pela família e amigos que foram dias antes para ajudar. O churrasco no espeto de vara, doces de abóbora, mamão, bolo e bebidas.
A noiva teve o vestido feito em São Manuel por uma amiga, que também fez o arranjo da cabeça. Entre os convidados havia muitas autoridades da região e também de Areiópolis. O fotógrafo veio de São Manuel e logo após a festa, os noivos foram para a lua de mel em Poços de Caldas.
Vestidos de noiva não tinham decotes
Estudo de Carolina Ferreira sobre moda aponta que, no início do século passado, a mulher tinha o corpo totalmente coberto para o matrimônio
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| O vestido para noivas na era moderna começa a se modificar na primeira década do século passado, no período da Belle Époque |
Um estudo sobre as características da moda noiva nas décadas de 30, 40, 50, 60 e 70 feito por Carolina Ferreira revela que o vestido para noivas da era moderna começa a se modificar na primeira década do século, passando por características como da Art Nouveau e Belle Époque, chegando aos anos 30 com ideias simplistas devido a fase econômica mundial e as guerras.
Segundo ela, a mulher tinha o corpo totalmente coberto para o matrimônio. Silhuetas mais ajustadas, tecidos simples sem texturas, de baixo custo e quase nada de decotes, aparecem em noivas que até o meio da década de 40 presavam pelo uso do branco culturalmente escolhido para cerimônias tradicionais. Mangas longas e véus longos também aparecem em registros.
A noiva da década de 30 e 40 usava pouca maquiagem, mostrava as formas do corpo em modelagens pouco trabalhadas e quase sempre sem bordados e pedrarias. Em meados de 1947 aparecem alguns vestidos compostos por duas peças como tailleurs, saias em comprimento mídi, uso de luvas longas e coroas nos cabelos também marcam o dia especial na vida das mulheres.
No fim dessa década ainda podemos contar com a aparição do costureiro Cristian Dior com novas formas para a vestimenta feminina, refletindo também na forma da nova noiva se vestir. As saias ganham volume, as cinturas podem ser marcadas com fitas e laços e a noiva pode então ganhar mais glamour, inclusive nos penteados, arranjos para o cabelo e maquiagem.
Os anos 50 fica conhecido como a volta da feminilidade para os trajes femininos. Com mulheres começando a ganhar espaço e independência, os anos 60 são marcados com noivas usando vestidos de vários comprimentos, nas modelagens com saias retas e cinturas pouco marcadas, os sapatos aparecem, nota-se ausência de véus. Mas os cabelos são modelados e muitos lábios marcados com batom vermelho.
Chegando nos anos 70, as noivas seguem usando vestidos leves, fluídos, em tons que vão além do branco como, rosas e amarelos, flores nos cabelos e em broches para cintura e decotes também dão graça a essa década que é influência ainda hoje para tantas noivas.
Festas
Uma pequena recepção aos convidados era oferecida após a cerimônia religiosa nos casamentos realizados em Alfredo Guedes. Os noivos, de famílias mais abastados, realizavam festa e bailes noite a dentro. O cardápio das festas eram pratos caseiros, predominando carnes assadas, doces de frutas, refrigerantes, vinhos e algumas cervejas. O evento era encerrado com o tradicional bolo da noiva.
Os pratos eram preparados pela família e parentes para que todos se fartassem, ou mesmo por conhecidos que se ofereciam para esta função. Era tradicional que os padrinhos oferecessem bolo e refrigerantes.
As residências eram preparadas com cobertura em lona para abrigar convidados ou mesmo dentro das residências e quintais. Os salões da igreja e mesmo do clube do distrito eram usados para festas. Em alguns casamentos os padrinhos eram recepcionados em restaurante de hotel da cidade de Lençóis Paulista para almoços festivos.
A decoração da igreja ficava sob a responsabilidade da noiva e de seus parentes. Flores colhidas nas fazendas e quintais eram utilizadas para essa função. Fitas de cetim, papel de seda, flores artificiais, laços diversos eram dispostos nos bancos e vasos do altar. Com singeleza a igreja era preparada para o momento único das vidas do casal.
Horário das cerimônias
As cerimônias aconteciam nos mais variados dias e horários, mesmo durante a semana antes do almoço. O ritual nem sempre com muitos convidados, os noivos recebiam o sacramento do matrimônio na presença do pároco, o mais citado João Amâncio da Costa Novaes. Há também o registro de alguns sem a presença de convidados por ocasião de grandes chuvas no horário. Outras com a capela lotada por familiares e amigos.
Os presentes
Os noivos eram presenteados das mais diversas formas. Utensílios para copa e cozinha predominavam. As louças de jantar, sobremesa, jarros também faziam parte da lista. Peças de enxoval também eram presentes de parentes e amigos próximos. Aos padrinhos cabiam a responsabilidade da bebida e bolo, quando não ofertados pelos pais das noivas.




