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De jararaca a crocodilo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Há uma espécie de borboleta em cuja asa traseira uma grande mancha imita uma gota de líquido com tão fantástica perfeição que uma linha é ligeiramente deslocada no ponto exato em que cruza aquela parte da asa. Essa parte da asa parece ter sido afetada pela refração, como teria sido o caso de uma verdadeira gota globular através da qual estivéssemos observando o desenho da asa. Essa borboleta russa, descrita por Nabokov perde em mimetismo para o “bípede implume” Lula da Silva, capaz de metamorfosear-se ora em jararaca, ora em crocodilo em lágrimas. O ex-presidente já foi um dos líderes mais populares do mundo – “o cara”, no dizer de Obama – mas hoje, seis anos depois de deixar o poder, convive com o desprestígio político, o abandono dos amigos e as suspeitas de corrupção sobre o seu patrimônio familiar.

Todos nós sabemos – ou desconfiamos – que os favores que teriam sido prestados a Lula pela empreiteira OAS fazem parte do contexto global de pilhagem do Estado, tramada durante o governo PT. Mas, onde estão as provas? Cadê o recibo assinado? Daí o “espetáculo deplorável” e “show pirotécnico”, para usar apenas de algumas das expressões usadas pelo ex-presidente para descrever a entrevista coletiva, em que a força-tarefa da Lava Jato apresentou denúncia contra Lula e a ex-primeira-dama Marisa Letícia. O casal e outras pessoas estariam envolvidas na troca de favores relativa à reforma e mobília de um tríplex no Guarujá, e ao custeio do armazenamento de bens e documentos acumulados no período presidencial.


Para desmoralizar os procuradores, a esquerda recorreu até à ridicularizarão dos slides da apresentação, considerados “amadores” por ter se valido de um recurso barato, o PowerPoint. Não há porque repreender um trabalho que primou pelo didatismo. A Operação Lava Jato, que investiga o maior esquema de desvios de recursos públicos da história do país, vai chegando ao seu ponto culminante. Foi denunciado o “comandante máximo do esquema criminoso” ou o “maestro da grande orquestra concatenada para saquear a Petrobras e outros órgãos públicos”. A denúncia é bombástica, porque, por enquanto estamos na “gorjeta” de R$ 3,7 milhões de que Lula está sendo acusado de ter recebido indevidamente. O total da propina pago no petróleo teria atingido R$ 6,2 bilhões e o prejuízo da estatal é estimado em R$ 42 bilhões. Significa que muito ainda precisa ser apurado até que todos os responsáveis pela roubalheira sejam punidos. Só assim os brasileiros vão se sentir minimamente desagravados por terem sido vítimas de tanta infâmia.


“Provem uma corrupção minha e eu irei a pé para ser preso” - foi o recado direto aos procuradores, que teriam exagerados na apresentação midiática. A distância entre São Bernardo e Curitiba é muito grande para ser percorrida sem a ajuda do jato da Polícia Federal. O show defensivo de Lula foi semelhante ao espetáculo armado pelo Ministério Púbico para acusá-lo. Lula também apelou para argumentos que só fazem sentido para ele e para quem o idolatra incondicionalmente. Colocou-se como um herói nacional, um predestinado a mudar os destinos do país, um perseguido pelas “elites” e por inimigos imaginários que só identifica por “eles”.  Tudo faria parte de um complô persecutório do Ministério Público e pela mídia, que seriam os responsáveis pelas mentiras contra ele. “Me dedicaram um apartamento que não tenho, uma chácara que não é minha e me acusam de ser o comandante do maior esquema de corrupção da Petrobras. Quem mentiu está numa enrascada” – avisou


Está mesmo. A bola agora está com a Justiça em todas as instâncias. Pelo jeito, os brasileiros ainda vão ter que esperar muito para saber quem está dizendo a verdade.  Esgota-se paciência de 12 milhões de desempregados à espera de que tudo termine, para o país reencontrar os seus rumos e, enfim, se reabrirem as vagas de trabalho perdidas. Nos anos 1960 a Rede Globo chamou Janet Clair para salvar a novela “Anastácia, a mulher sem destino” que andava mal no Ibope.


A roteirista bolou um terremoto que matou a maioria dos personagens, possibilitando o recomeço da trama.  Quem sabe esta seria a solução para a novela brasileira, cada vez mais dramática. Sobrariam Sergio Moro e Deltan Dallagnol. Moro condenaria o procurador por “PowerPoint doloso” e Moro seria guilhotinado pelo povo, como Robespierre o foi na Revolução Francesa, por armar tanta confusão.


O autor é jornalista e articulista do JC

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