Cultura

O disco da vida de Beyoncé no movimento antipop

Pedro Antunes
| Tempo de leitura: 3 min

Marcos Hermes/Divulgação
Beyoncé e Frank Ocean são apenas os casos mais descarados do movimento antipop

No final de agosto, Beyoncé subiu ao palco do Video Music Awards (VMA), uma importante premiação da música pop organizada pela MTV norte-americana, para uma performance arrasadora. Foram 16 minutos televisionados para o mundo todo. Lá, ela mostrou cinco das canções de Lemonade, o seu disco mais recente, de abril. As redes sociais se inundaram de comentários positivos. E surpresos. Para muita gente, era o primeiro contato com aqueles petardos raivosos reunidos em um pout-pourri.

Frank Ocean, rapper que virou cantor, faz um anúncio, na segunda faixa de seu segundo disco: “Eu achava que estava sonhando quando você disse que me amava”. Ele se declara, se expõe, se entrega. A revista Rolling Stone disse que Blonde, o álbum, é um “assombro atordoante e viajante”. E vocês, cara leitora e caro leitor, talvez sequer tenham ouvido falar desse sujeito. Talvez nem mesmo a pessoa que inspirou a canção tenha ouvido aqueles versos cheios de saudade.

Beyoncé e Frank Ocean são apenas os casos mais descarados do movimento antipop no qual a música (pop) mergulhou há dois anos. Ocupam espaços diferentes no gênero, é verdade. Ocean é revolucionário na forma como transforma a sonoridade minimalista e conduz as canções em versos confessionais. Beyoncé, na outra ponta, é o maior nome do pop na última década. E, mesmo tão distantes nessa esfera enorme, eles estão escondidos daquilo que é a essência do popular, e não estão sozinhos nessa.

Blonde e Lemonade são discos ouvidos apenas por aqueles que assinam determinados serviços de música por streaming. O disco de Ocean foi acorrentado pelos contratos de exclusividade assinados com a Apple Music em seu primeiro mês de lançamento. Já Lemonade só está disponível a quem paga a mensalidade do Tidal, um serviço no qual um dos sócios é Jay Z, rapper e marido de Beyoncé.

Há pelo menos dois anos os serviços de streaming têm abocanhado, por meio de contratos milionários, a exclusividade do que pode ser o disco da sua vida. Da minha vida, ou da vida de alguém. Mesmo que exista algum exagero nessa constatação, não é uma inverdade.

Música por streaming

Para compreender o que acontece com Beyoncé, Ocean e outros é preciso voltar ao início da música digital, que lançou a pá de cal na indústria fonográfica como conhecíamos. Em 1999, sites como Napster criaram a troca de arquivos (e de músicas) de maneira indiscriminada pela internet. Os números de vendas de álbuns físicos despencou, as gravadoras quebraram. Os downloads pagos (como o iTunes, que oferecia músicas com preços a partir de US$ 0,99 cada) foram uma saída momentânea, mas ainda ineficaz.

A música por streaming se apresentou como algo viável, do ponto de vista das gravadoras e para o consumidor a partir da década de 2010. O Spotify, o maior deles, diz ter 39 milhões de assinantes. Com uma assinatura, é possível ouvir todo o catálogo, 30 milhões de músicas, montar listas, compartilhá-las e deixá-las salvas no celular ou computador e ouvi-las até sem conexão com a internet. Em 2016, de acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica , o lucro dessa indústria cresceu 3,2%, o maior em duas décadas, graças à música digital.

Falta só o dinheiro ir para o bolso dos artistas. Quase todos os serviços de streaming oferecem menos de US$ 0,001 aos músicos para cada música executada. Assim nasce o dilema. Cada artista tenta conseguir, melhor remuneração. Nascem daí, também, os contratos de exclusividade. Lemonade, de Beyoncé, levou 1,2 milhões de assinantes para o Tidal. É um desempenho modesto para aquele que é considerado um dos melhores discos do pop da década. Os números de Lemonade são pouco representativos. Dangerously in Love vendeu 11 milhões de cópias.

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