| Marcos Hermes/Divulgação |
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| Beyoncé e Frank Ocean são apenas os casos mais descarados do movimento antipop |
No final de agosto, Beyoncé subiu ao palco do Video Music Awards (VMA), uma importante premiação da música pop organizada pela MTV norte-americana, para uma performance arrasadora. Foram 16 minutos televisionados para o mundo todo. Lá, ela mostrou cinco das canções de Lemonade, o seu disco mais recente, de abril. As redes sociais se inundaram de comentários positivos. E surpresos. Para muita gente, era o primeiro contato com aqueles petardos raivosos reunidos em um pout-pourri.
Frank Ocean, rapper que virou cantor, faz um anúncio, na segunda faixa de seu segundo disco: “Eu achava que estava sonhando quando você disse que me amava”. Ele se declara, se expõe, se entrega. A revista Rolling Stone disse que Blonde, o álbum, é um “assombro atordoante e viajante”. E vocês, cara leitora e caro leitor, talvez sequer tenham ouvido falar desse sujeito. Talvez nem mesmo a pessoa que inspirou a canção tenha ouvido aqueles versos cheios de saudade.
Beyoncé e Frank Ocean são apenas os casos mais descarados do movimento antipop no qual a música (pop) mergulhou há dois anos. Ocupam espaços diferentes no gênero, é verdade. Ocean é revolucionário na forma como transforma a sonoridade minimalista e conduz as canções em versos confessionais. Beyoncé, na outra ponta, é o maior nome do pop na última década. E, mesmo tão distantes nessa esfera enorme, eles estão escondidos daquilo que é a essência do popular, e não estão sozinhos nessa.
Blonde e Lemonade são discos ouvidos apenas por aqueles que assinam determinados serviços de música por streaming. O disco de Ocean foi acorrentado pelos contratos de exclusividade assinados com a Apple Music em seu primeiro mês de lançamento. Já Lemonade só está disponível a quem paga a mensalidade do Tidal, um serviço no qual um dos sócios é Jay Z, rapper e marido de Beyoncé.
Há pelo menos dois anos os serviços de streaming têm abocanhado, por meio de contratos milionários, a exclusividade do que pode ser o disco da sua vida. Da minha vida, ou da vida de alguém. Mesmo que exista algum exagero nessa constatação, não é uma inverdade.
Música por streaming
Para compreender o que acontece com Beyoncé, Ocean e outros é preciso voltar ao início da música digital, que lançou a pá de cal na indústria fonográfica como conhecíamos. Em 1999, sites como Napster criaram a troca de arquivos (e de músicas) de maneira indiscriminada pela internet. Os números de vendas de álbuns físicos despencou, as gravadoras quebraram. Os downloads pagos (como o iTunes, que oferecia músicas com preços a partir de US$ 0,99 cada) foram uma saída momentânea, mas ainda ineficaz.
A música por streaming se apresentou como algo viável, do ponto de vista das gravadoras e para o consumidor a partir da década de 2010. O Spotify, o maior deles, diz ter 39 milhões de assinantes. Com uma assinatura, é possível ouvir todo o catálogo, 30 milhões de músicas, montar listas, compartilhá-las e deixá-las salvas no celular ou computador e ouvi-las até sem conexão com a internet. Em 2016, de acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica , o lucro dessa indústria cresceu 3,2%, o maior em duas décadas, graças à música digital.
Falta só o dinheiro ir para o bolso dos artistas. Quase todos os serviços de streaming oferecem menos de US$ 0,001 aos músicos para cada música executada. Assim nasce o dilema. Cada artista tenta conseguir, melhor remuneração. Nascem daí, também, os contratos de exclusividade. Lemonade, de Beyoncé, levou 1,2 milhões de assinantes para o Tidal. É um desempenho modesto para aquele que é considerado um dos melhores discos do pop da década. Os números de Lemonade são pouco representativos. Dangerously in Love vendeu 11 milhões de cópias.
