Não é fácil o caminhar humano. Mesmo quando nascemos guarnecidos de uma família que nos sustente, que nos ampare, mesmo quando não nos faltam as condições mínimas financeiras para não nos falte o necessário, ainda assim haverá pedras pelo caminho. O que fazemos com essas pedras, entretanto, é algo muito pessoal.
Por vezes, enquanto supomos estarmos flutuando sobre águas calmas, somos surpreendidos por ondas que nos sacodem e abalam nosso percurso, nossa segurança de que a viagem correria sem maiores problemas. Muitos de nós, pegos de surpresa, perdem o equilíbrio e acabam submergindo, afogados pelos problemas que fazem parte do pacote de estar nesse mundo.
Outros, mais seguros, mais firmes, superam o susto, seguram-se como podem e, tão logo conseguem retomar os remos, seguem na direção desejada, ainda que tenham que recalcular a rota. Seja como for, prosseguem e, por vezes, após a tormenta, descobrem novos continentes, novas alegrias, novos portos seguros.
De fora, creio, todos temos a sensação de que as pedras pelos caminhos do vizinho são sempre menores e até menos ásperas, pois a proximidade com as nossas próprias pedras faz delas imensos e intransponíveis rochedos. Se olhamos para o próximo, somos capazes tanto de ajuda-lo a carregar o fardo que lhes compete, como de termos o desejo de as nossas pedras, ao menos, pudessem ser singelas como as que adornam os alheios e floridos jardins.
O curioso sobre as pedras que por destino nos pertencem é que elas não podem ser removidas enquanto não aprendermos como devem ser roladas, lapidadas. Tentar transpô-las sem delas extrairmos a lição que carregam apenas serve para que elas sejam colocadas a nossa frente em momento futuro. Respirar profundamente, manter a fé e a coragem, entretanto, nos momentos difíceis que a vida apresenta não é tarefa das mais fáceis.
Acredito não temos como nos furtarmos das adversidades da vida. Algumas vezes elas nos arrastam ao fundo ou mesmo nos roubam o sopro vital. Em outras, se temos sorte, tão somente nos furtam o sono. De algumas lições saímos mais fortes, mais preparados. De outras, se nos falta estrutura, saímos somente feridos, doridos. De uma forma ou de outra, nunca mais seremos como éramos. E assim segue a vida humana: sempre frágil, sempre à mercê de intempéries, sempre forçada a escolhas. Sobreviver é a meta, ser feliz é o pressuposto e o destino. Nascemos grávidos da vida e da morte, do amor e da dor, da alegria e da tristeza.
Ora em chão firme, ora na corda bamba, seguimos vivendo como nos é dado fazer, inebriados pelos nossos sonhos, nossos desejos, nossas aspirações. Que sejamos capazes de dar significado a todos os tombos, a todas as injustiças, a todas as tragédias e que quando a sombra e o sol nos agraciarem, nos delicados oásis da vida, sejamos capazes de ser gratos, certos da efemeridade de tantas coisas...