Articulistas

Pão-duro

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Qualidade, essa é a palavra. Comprar é a outra. Juntando as duas, surge uma terceira: bom senso. Por conta dessa minha mania de tudo detalhar, demoro-me em dizer o óbvio: já que temos de comprar, que o façamos exigindo qualidade. Para tanto, pesquisar, examinar, avaliar, experimentar e, só depois desse acurado teste de qualidade, sacar o cartão de crédito e pagar. Esse é o procedimento mínimo a se  esperar de pessoas normais. Eis o problema, temo não fazer parte dessa turma. Um exemplo? Anormalmente, compro preço e não, qualidade. Quando entro numa loja de roupa, por exemplo, o  que me interessa, antes de qualquer coisa, é encontrar a etiqueta precificada. Só depois de saber  quanto  custa, examino o tecido e o modelo da camisa que poderá - dependendo do desconto -  vestir-me no natal.


Confesso-me envergonhado por ter essa mão fechada, sobretudo porque não existe na Terra um único asno  que não saiba que o barato não tem jeito, sai caro. Já perdi a conta das calças e das camisas perdidas no tanque da primeira lavada. Sei que essa minha sovinice é detestável, mas o que  posso fazer contra esse carma genético que colocou um DNA pão-duro no mais fundo do meu  bolso?


Minha mulher, não. Em tudo, é diferente de mim. Compra com sabedoria, compra só qualidade, não se importa com preço. “Coisa boa custa caro” é o que, inutilmente, ela insiste em me ensinar. O meu guarda-roupa por tudo isso ganhou duas caras: a minha e a dela. Estamos ali unidos para sempre e muito bem representados. De um lado, as roupas baratas (e envergonhadas), que não consigo deixar de comprar; de outro, as  de qualidade (e caras), que dela venho ganhando nas mais diversas oportunidades: dia do nascimento de Jesus, dia do meu nascimento, dia do aniversário do nosso casamento... e, por ser ela  muito generosa e continuar assim me presenteando, dia dos pais, dia dos avós, dia do professor e se houvesse mais um dia, eu seria régia e merecidamente presenteado: dia do pão duro.


“Vai tomar banho e se vestir. A calça nova está no cabide na área de serviço, mandei a Creusa deixar passadinha.” Explico: é a voz da minha mulher; é meu aniversário; tem  festa  para  a família e amigos. Como sempre, ela me presenteou e dessa vez  com uma calça caríssima, dessas que eu não compraria nunca, mas reconheço de grife e de qualidade incontestável. Na área de serviço, lá estavam, no cabide, duas calças: a minha linda e caríssima e a vagabunda  do meu filho, quero dizer, a calça barata que ele comprou numa liquidação por poucas dezenas de reais e,  ainda por cima, parcelados. Acho que agora fica cabalmente comprovado o que  eu disse sobre essa coisa de herança genética, que geralmente envolve  um tal pai e um tal filho.


Desci para a sala toda enfeitada para receber os convidados. Como um general, minha mulher me passou por rigorosa revista. Examinou a camisa, o cinto, as meias, os sapatos, a colônia, o desodorante, as unhas, a barba, os cabelos e  seus olhos  se iluminaram quando ela constatou a perfeição da nova calça. “Tá vendo, que corte perfeito, percebe como ela veste bem, olha só o caimento, maravilhoooosa... Essa calça vale, e como vale, todo o dinheiro que gastei. Vê se aprende de uma vez, seu munheca,  qualidade é tudo e por isso custa caro.” Nesse exato momento, ela foi interrompida pelo meu filho que chegou protestando: “Pai, você pegou a calça errada, pai, essa é a minha, pô!” Minha mulher perdeu o rebolado, perdeu a cor, mas não a frase agressiva: “Vai trocar imediatamente essa porcaria!” Fui.


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras curso_romag@uol.com.br

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