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Procura-se

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Dei falta dela recentemente. Numa conversa entre amigos, percebi sua presente ausência. Respeitada intelectualmente, pontuava sólido desenvolvimento argumentativo. Demarcava sensata fronteira entre o ideal e o real. Éramos muito íntimos, a ponto de dedicar-lhe grande parte do meu dia, do meu tempo. Tempo de leitura, de análise crítica, de comparações fundamentadas. Tamanha dedicação, por priorizá-la, inclusive aos finais de semana e feriados - confesso-lhe - sinto muita falta da minha Capacidade de Indignação.


Primeiro desentendimento, quando percebi a digital da verdade embutida no pensamento de Voltaire, ao afirmar a mediocridade ser uma bênção. O quanto de sua confortável capacidade por anestesiar mentes e por silenciar bocas. O quanto faz de bons espectadores serem péssimos eleitores. O quanto faz de um país ter povo, no lugar de ter nação. Nas conversas, em cujos temas depositam-se as mais inflamadas reações, lá estava a fala panfletária, politicamente correta para impressionar tolos, isto é, todos. Começamos, despropositadamente, em sala de aula, informativa análise sobre preconceito étnico. No campo da discussão, todos, logicamente, sob a mansuetude de um cordeiro, alegavam inexistir diferença étnica. Disfarçavam, na hipocrisia dos verbos de aluguel, nas frases de empréstimo, a ferocidade do lobo, que ardilosamente, à espreita, alimenta-se, em superior deboche, do preconceito alheio. Por indigna noção, indignação!


O segundo foi pior. Sua falta pesou, no momento em que vi, na feira municipal, nervoso movimento entre os que, por ali, transitavam. Políticos, ou melhor, atores, travestidos de gente, no exercício cênico que lhes convêm, segurarem crianças, click!, beijarem eleitores, click!, afagarem idosos, click! e o povo num riso suado sentir-se acolhido, tamanha devoção pelas propostas religiosamente eleiçoeiras, pelas medidas praticavelmente impraticáveis, pelas obras acessivelmente inacessíveis. Reside aí, prezado(a) leitor(a) o anedótico, talvez o risível da condição humana. Rir de si mesmo, por quão ridículo somos e tornamo-nos, por crer em mentiras sinceras. Por quanto a nossa falência intelectual transformou a pobreza em nossa maior riqueza. Pela inação, indignação!


O terceiro, feito posseiro, invadiu meu terreiro, inconformando minha reflexão. Enquanto o mundo explodindo ao vivo e em cores, minha mulher com meus filhos vibravam, em fieis torcedores, por uma disputa de notório programa culinário. Indigestivo ingrediente. Prato feito, ou melhor, cheio para que essa ordinária emoção espetasse minha reservada razão. E na condição de minoria, obrigado fui, como Veríssimo numa crônica sobre Refeições Ideológicas, a engolir a emoção familiar em torno do programa, tamanho era o cardápio de variedades. Percebendo aguda dificuldade de encontro com minha capacidade de indignação - segredo-lhe - gostaria de saber que fim a levou. Afinal, se a perdi, porque, um dia, a tive. Por isso, quem encontrá-la, por favor, mande afetivas lembranças. Minhas e dos neurotransmissores.


Por fim, dia desses, busquei instantes de felicidades com minha família e amigos, num espetáculo circense na região. Formidável, até não se formar filial cansaço. Vencida pela quantidade de apresentações, minha caçula Luiza perguntou-me quando acabaria. Respondi-lhe somente quando o mágico entrar e realizar sua magia. Enquanto ele não entrar, o espetáculo continua. Em nosso futuro, inexiste mágico. Inexiste magia. Enquanto ele não entrar em cena, evite olhar-se para o espelho e descobrir que, nesse espetáculo, o palhaço somos nós.


O autor é professor de Redação de colégios e universidade, doutorando em Letras pela UNICAMP e colaborador cultural do JC, alexandrebenegas@gmail. com

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