Segundando

Misteriosa democracia

João Jabbour
| Tempo de leitura: 3 min
A ideia e a prática da venerada democracia é instigante, não pelo prisma de suas perfeições e imperfeições e nem mesmo pelo misto das duas coisas. Mas por fugir ao controle absoluto de corporações, partidos, lideranças políticas, Estado etc. Por mais direcionada e manipulada que seja ao bel prazer de quem tem mais força e poder, é impressionante sua volatilidade, principalmente quando chegam as eleições. Nessas horas, como uma metamorfose ambulante, foge ao controle total do pensamento dominante que a impôs um dia e ao establishment que a controla. Pelo menos no dia em que o cidadão vai votar é assim. Ontem, das 8h às 17h, ela reinou soberana.
No geral, no balanço de perdas e danos, a democracia continua como alma e sustentáculo da forma como o mundo é dividido e comandado. Não há dúvida. Ela representa o status quo da relação dominante/dominado há séculos, mas não controla absolutamente os resultados de sua existência e a sequência da história, pela perspectiva dos atores deste palco tão disputado.
No dia da votação, ela fica, de certa forma, órfã, sem tutela, é de todos e não é de ninguém, embora, como se propaga em forma de marketing, seja na eleição que ela se consagra e é cantada em verso e prosa. Mas a democracia fica nervosa no dia da votação, mesmo na véspera. Ninguém aprendeu como controlar a vontade coletiva e essa vontade não tem controle mesmo, repito, pelo menos não de forma absoluta e perene. Pode-se prever resultados, acertar alguns, errar outros, mas ninguém entende o âmago da razão da vontade da maioria. Tudo dentro do planejado por quem inventou e sustenta que a democracia é o melhor regime político.
Mais do que imprevisibilidade, o resultado do dito julgamento popular de um governo e escolha de outro ou de uma grande mudança nos rumos de uma nação é algo que desafia todas as formas e métodos de se pensar a organização da sociedade. O Brexit é um exemplo. O Reino Unido aprovou aquilo que, ao que parece, não queria. Isso ficou claro alguns dias depois de sua saída da União Europeia. Ou será que queria mesmo, porque, afinal, aprovou? Eis a questão que não permite verificação científica cabal. E Trump nos Estados Unidos?!
Incomodados com a impossibilidade de entendê-la, alguns teóricos defendem o fim ou a reforma da democracia e a substituição por algo que nem eles mesmos sabem definir, simplesmente porque não existe. O contrário seria um regime autoritário, uma ditadura, algo em desuso no Planeta, embora sempre incidental e tentador aqui e ali. Alguns formulam soluções baseadas até na sorte, mas é muito pouco e desafiador para o intelecto humano que vive sonhando controlar a natureza e a si próprio.
Eis, então, que surge outra pergunta: será que a democracia deveria ser 'perfeita'? Não será justamente a imperfeição sua blindagem contra controles eternos de grupos políticos e sistemas de ideias ou credos? Talvez seja. E a prática assim tem se revelado. Tanto que a alternância do poder é um de seus pressupostos. Basta verificar os resultados das urnas, ontem. Os mais radicais, que não a adotam como ideal, dirão: a democracia alterna os inquilinos no poder, sim, mas mantém a blindagem e perpetua o capitalismo à sua maneira.
A imperfeição talvez seja mesmo a razão de existir da democracia. Porque espelha com grandeza, pompa e circunstância a natureza humana, altamente imperfeita.
Como se diz no modo coloquial: ruim com ela, pior sem ela...
Sigo crendo que o que tem de mudar são os homens, depois os sistemas, que poderão espelhar, aí sim, uma humanidade bem mais civilizada.

Comentários

Comentários