Encantam, irritam, dão sentido a outras vidas, tomam o tempo de uma vida inteira. Tiranas, traquitanas. Tão tolas como totais. Quando somos crianças não entendemos como as crianças nascem. Quando jovens, morremos de medo de ter uma. Uma vez adultos, de saco cheio do mundo grande, queremos mais é ter uma criança por perto para apertar: legal, marrenta, companheira, egoísta e, acima de tudo, pequena.
Uma música diz que elas vão crescendo e dão novo sentido ao prazer. Outra ressalta que criança não trabalha, dá trabalho. Bem, também damos trabalho a elas. Por exemplo: quando só temos impaciência para as fantasias infantis. Quando só temos tempo para dormir e quase nenhum para sonhar. E ainda obrigamos que os pequenos acompanhem nosso mundo crescido, real demais para ser divertido.
Regina Duarte contou, na madrugada de ontem, ao Jô, que sempre tentava passar embaixo do arco-íris e que queria mesmo era ser menino. Coisas de criança libertária (redundância: toda infância deve ser livre). Pena que, desde cedo, ensinemos às crianças que segunda-feira é dia de escola, que não se solta pum na frente dos outros e que não se pode passar embaixo de arco-íris.
Caóticas e sistemáticas, muitas vezes as duas coisas ao mesmo tempo, as crianças deixam a gente louco porque, normalmente, estão com a razão. O que devemos é parar de formatá-las para serem adultas antes da hora. E, quando essa hora chegar, devemos olhar no fundo dos seus olhos adultos e dizer: nunca deixe de ser criança.
Dizer: mesmo que você venha também a ter as suas, como tive Gabriel e Laísla, como meus pais tiveram João e Renata, saiba não perder a graça expansiva da infância, essa sábia vestida de qualquer jeito. É a única fase da vida que pode durar para sempre dentro da gente. A única que desafia o cinza adulto com seu arco-íris sem fim.