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| O uso dos celulares em sala de aula é um dos maiores desafios atuais para os professores |
Responda rápido: qual o presente mais desejado por uma criança de 8 anos? Se você disse que é um carrinho ou uma boneca, provavelmente não tem filho. Ou não conhece muito de perto a realidade dos pequenos nativos digitais. Celular e tablet são a nova mania dessa geração, que já se conecta com o mundo virtual ainda no berço. Mas e quando essa tecnologia é levada para a sala de aula? Hoje, Dia do Professor, a pergunta que não quer calar é: pode o celular ser um aliado em sala de aula?
Segundo a psicopedagoga Marjorie Martins Peraldo Bert, dá para chegar a um ponto de equilíbrio nessa relação escola X celular. “O uso de celular na escola é um recurso adicional para apoiar os educadores a integrar a tecnologia, com finalidade de instrução, aos conteúdos curriculares. Alguns aplicativos didáticos já estão disponíveis no Brasil. A questão é que as escolas em geral ainda não fazem uso destes recursos e, por isso, aquelas que permitem, não conseguem controlar a indisciplina quanto ao uso deste”.
Ela acredita que, por já estar incorporado ao cotidiano da criança e do adolescente, e por oferecer tantos recursos, o celular deveria somar na educação e não atrapalhar. A orientadora educacional Ana Paula Barros de Paiva concorda: “É importante considerar que a proibição do uso de celular em sala de aula desperta ainda mais o desejo de usá-lo. Tudo que é proibido é mais gostoso. Mas, infelizmente, a escola tem buscado formas de proibir a entrada deste objeto em suas dependências. Se o celular for colocado como objeto de estudo e pesquisas, poderá apoiar o desenvolvimento das habilidades sociais do século 21”, salienta.
ENTRETANTO...
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| Alunos do 6.º ano do Sesi de José Bonifácio usaram a brincadeira e o celular para aprender sobre história |
Por outro lado, é sabido que o celular acaba tirando a concentração do aluno em sala de aula, além de estimular comportamentos não muito éticos.
A professora Janaina Paiva Ono, que dá aula para o ensino fundamental 2, sabe bem o quanto é difícil conter o uso do aparelho na classe. “É um assunto extremamente complicado. Existe uma lei estadual que não permite o uso (Decreto nº 52.625, de 15 de janeiro de 2008), mas já está desatualizada, pois não tem mais como inibir o uso na sala de aula. Por outro lado, temos uma geração muitas vezes imatura com relação à responsabilidade. Eles acabam abusando, com as redes sociais, e até para colar nas avaliações. O que tem acontecido muito. O fato é que o celular deve sim ser um aliado. Sempre. Mas ainda existe uma grande dificuldade de nossa parte de como fazer isso” .
Marjorie também ressalta a qualidade dispersiva dos aparelhos. “Há prejuízo na aprendizagem. A tentação é grande em estar conectado, pois a gratificação é instantânea. A tecnologia tornou os adolescentes intensamente envolvidos com o momento presente. Qualquer pai de um adolescente sabe que quando o seu filho está com o celular ele perde a noção de tempo, bloqueia o resto do mundo e dá atenção total ao objeto, pois não querem perder nada”, completa.
Aparelho pode ser aliado do ensino
Já que não pode com ele, junte-se a ele. Para a orientadora educacional Ana Paula Barros de Paiva, as escolas e os professores devem começar a traçar estratégias para incorporar o uso do celular como um aliado do ensino. “Qualquer conteúdo pode ser trabalhado usando o celular, contudo, é fundamental o planejamento do professor para que os objetivos ao usar esta ferramenta sejam alcançados”, ressalta.
Ela explica que o potencial do celular dentro de uma sala é o estímulo que ele causa nos alunos e a independência e autonomia que desenvolve, colocando-os como coautores do próprio conhecimento. “Alunos que se deparam com objetos que já vivenciam fora da escola sentem-se mais seguros e independentes dentro do ambiente escolar e na construção do seu conhecimento, devido à facilidade que têm ao manusear a ferramenta”, explica.
Ela defende que a utilização do celular promove o desenvolvimento intelectual, social e cognitivo de maneira conjunta, pois ele é um estímulo para auxiliar na assimilação dos conteúdos pedagógicos. “Quando são propostos novos caminhos para aprender, o desenvolvimento intelectual acontece de forma natural, pois há exercício da capacidade de pensar. A informação se transforma em conhecimento”.
De acordo com ela, se um projeto tiver a intenção de fazer com que os alunos conheçam os valores através dos tempos, é possível entrevistar funcionários da própria escola ou parentes, utilizando recursos próprios do aparelho como filmagens, imagens, entrevistas, gravações, comunicação, além de envio de mensagens com dúvidas, avaliações e dicas diversas relacionadas às disciplinas.
PARA COMPLEMENTAR
Pedro D´Incao destaca que sua escola procura usar o melhor que a tecnologia oferece. O uso do celular e de tablets complementa o projeto pedagógico, mas tudo deve ser feito sempre com bom-senso. “Mantemos o wi-fi aberto, porém, ele é monitorado pela escola. A rede deve ser usada para finalidade educacional. Temos um controle dos sites que podem ser acessados. Por exemplo, é proibido baixar filmes e séries com a rede da escola, bem como acessar sites com conteúdos adultos ou duvidosos”, explica.
Ele ressalta que, em breve, a escola vai disponibilizar um aplicativo para os pais baixarem nos celulares que desabilita o aparelho em determinados momentos, como quando estiverem em aula ou quando os pais acharem necessário. “Isso vai impedir o uso da Internet na sala de aula em momentos inoportunos. Também será útil, por exemplo, quando os pais quiserem limitar o uso antes de dormir”.
Questão de segurança
Alguns pais também interferem diretamente no processo. É que eles preferem manter o filho com o aparelho como forma de monitorá-lo e se sentirem mais seguros por obter notícias imediatas dos pequenos. Só não pode fazer isso no período que o pequeno está na sala de aula, pois as normas nas escolas geralmente restringem o uso na classe.
“Um dos problemas que enfrentamos é justamente o pai ligar para o filho durante a aula. Isso gera uma questão disciplinar, já que não é permitido o uso do aparelho na sala de aula para esse fim. Entendemos que, para os pais, o celular é sinônimo de segurança, mas, para isso, disponibilizamos também o telefone da secretaria”, destaca Pedro D´Incao, diretor do Instituto de Ensino D´Incao.
Pokémon Pedagógico
Um exemplo da parceria celular/escola foi o projeto Pokémon Pedagógico, desenvolvido na escola Sesi da cidade de José Bonifácio (180 quilômetros de Bauru). A professora de história Janaina Paiva Ono resolveu usar a febre do momento, o jogo Pokémon Go, em uma de suas aulas.
Espalhou nos jardins do estabelecimento os monstrinhos feitos com papel-cartão e dividiu a sala em equipes de seis integrantes. Eles deveriam encontrar os Pokémons e colar a pokebola (sinal de que foram caçados). Em seguida, teriam de utilizar o celular para desvendar o QR Code colado no verso do Pokémon, que os direcionaria para cumprirem uma missão. Todas as missões eram relacionadas à história da Índia. Por exemplo: “dirija-se à biblioteca, pegue um livro sobre hinduísmo, fale sobre os principais deuses e faça um desenho representando o assunto”. “A missão foi cumprida, com apresentação das pesquisas em sala. No final, eles receberam PokeBis (Pokemóns com chocolate), como premiação. Foi uma manhã divertida e principalmente com muito aprendizado!”, destaca Janaina.
Série especial
Nesse sábado (15), será publicado um Caderno Ser especial, com oito páginas, sobre Educação. Ele abre uma série diária de reportagens do JC sobre o tema. Ao longo da próxima semana, serão abordados os mais diversos pontos do cenário educacional, inclusive com entrevistas com especialistas renomados.

