O dia em que o comitê do Nobel de Literatura distinguiu Bob Dylan foi o mesmo da morte de Dario Fo, que em 1997 recebeu a notícia da sua premiação por entre exclamações de espanto. O próprio Fo se declarou “chocado” com a sua escolha pela academia, já que melhor se expressava pela oralidade.
No teatro, ele desancou os valores burgueses e riu das próprias mazelas. Dylan, em seu show em Las Vegas, após o anúncio da premiação, preferiu nem tocar no assunto. “O que há na obra de Dylan que possa ser catalogada como literatura?” – é a pergunta feita em diferentes geografias. A academia sueca parece pouco preocupada em seguir regras rígidas nas suas premiações. Pode parecer desconcertante, mas o comitê de premiação, deliberadamente, não foge às críticas. Quem sabe até deseje impactar com a figura de um cantor e sua guitarra, nomeado para receber o laurel mais cobiçado do mundo.
Mas, afinal, o que é literatura? O autor de best-sellers John Updike ensina que a literatura nasceu no dia em que um menino chegou gritando “lobo, lobo”, e não havia nenhum lobo atrás dele. A historinha do menino que, posteriormente, acabou devorado por um lobo de verdade, é contada desde os tempos em que as conversas se davam ao redor do fogo, como exemplo às crianças sobre os perigos da mentira.
Os políticos mentem porque quando crianças preferiam caçar passarinhos. Mas é verdade que a literatura oral sempre existiu. A obra de Dylan – que contém coisas muito ruins ao lado de obras-primas – é uma gloriosa coleção de todas as tradições literárias da humanidade, desde os trovadores aos cantores de blues; desde o conto de fadas às orações.
No ano passado, o Nobel foi para a jornalista Svetlana Alexievich, que utilizou entrevistas como matéria-prima para construir textos empolgantes sobre a condição humana. Dylan é um trovador que pergunta sobre o que nos angustia e procura as respostas no sopro do vento. Se desejarmos formular uma teoria precisa da poesia, consideramos necessário examinar as estruturas da realidade porque a realidade é a referência central da poesia. Parte do fascínio que Dylan desperta nas novas gerações advém daí.
A sua forma de se insurgir, ou de resistir, já não é compor canções de protesto, mas sim desenvolver uma noção de autenticidade. Os beatnik (misto de beat = cansado + nik, de Sputnik, símbolo do avanço tecnológico, à época) formaram um movimento social e literário nos EUA (1950-1960), em reação ao modo de vida e os valores da sociedade industrial moderna. Hoje é chamado de “contracultura”. Traduz a mentalidade dos que rejeitam e questionam valores e práticas da cultura dominante do qual fazem parte. “Para viver fora da lei, você precisa ser honesto” – diz uma canção de Dylan. Como a dizer: puxe o seu fuminho, mas não encha o saco. Ou, seja coerente com os princípios que defende, que é a de um mundo melhor.
A rebeldia e insatisfação dos jovens da geração beat foi além da utopia. Pode ter desempenhado o papel de válvula de segurança de uma sociedade que se encaminhava para o caos, com a “guerra fria” entre a potências atômicas. O movimento permanece com um signo fundamental da evolução da civilização ocidental.
É indiscutível que Bob Dylan é autor de uma obra importante na cultura norte-americana e universal. A revista Life, ao escolher em 1990 os “100 americanos mais importantes do século vinte”, inseriu Dylan logo nas primeiras páginas, mesmo antes de Albert Einstein, Henry Ford ou Rockfeller. E mesmo os altos e baixos da sua carreira como músico e compositor nunca ofuscaram a sua estrela primordial, que é a marca do seu gênio. Certa vez foi chamado de “Judas”, porque trocou o violão pela guitarra elétrica, uma traição ao “folk”. A plateia caiu num silêncio total quando ele começou a cantar: “Estar sozinho, sem saber o caminho de casa/
Como um completo desconhecido/ Como uma pedra que rola...”A academia defende-se por premiar canções, dizendo que Homero também escreveu poesia para ser cantada. E ninguém lhe nega valor literário. Certamente, depois desse ponto de vista, muita gente começa a ter pretensões com os tuítes e os posts no facebook. Nunca se sabe... Caetano, Chico Buarque e Gil deveriam estar na Academia Brasileira de Letras, há muito. Por ironia, aos 19 anos, Dylan escreveu um poema pueril: “Nunca chegarei aos vinte e um...” Só que chegou aos 75. E ganhou o Nobel.
O autor é jornalista e articulista do JC