A reforma já começa com um passo, no mínimo, antidemocrática, pois as bases não foram consultadas, não houve uma abertura para questionamentos e certamente quem entende melhor de educação e seus rumos são seus professores (as), os mais interessados no destino do Ensino Médio.
Ela vem inclusive como medida provisória, de cima para baixo. Como escreveu Zarcillo Barbosa, colunista deste jornal, é temeroso subtrair filosofia e sociologia da grade curricular, pois são elas que proporcionam a formação humanística dos alunos. Não podemos enxergar o aluno do Ensino Médio apenas como jovem que vai para o mercado de trabalho, mas considerar também as outras dimensões do ser humano, não apenas, como escreveu o filósofo Edgar Morin, ‘eficiência para o mercado de trabalho’, mas também um ser humano por inteiro. Se consultados, professores diriam, certamente, que a tecnologia não pode substituir o professor, pois não se pode divinizá-la ou diabolizá-la, mas como ferramenta de aprendizagem que instrumentará o aluno para o exercício da cidadania. Se a proposta do ensino médio é de tempo integral, e os alunos das camadas populares que precisam trabalhar durante o dia, como ficarão? Vai continuar no mesmo patamar, o acesso se restringirá a outras classes sociais mais favorecidas.
A proposta contempla ainda a formação técnica e profissional na metade do curso, voltando assim ao modelo do tecnicismo do regime militar, onde tivemos péssimos resultados e a profissionalização terminou em verdadeiro caos (década perdida da educação). Mas os pedagogos dizem que vivemos em educação o neo-tecnicismo, o neo-produtivismo, onde a preocupação é apenas em atender o desenvolvimento do país e não o desenvolvimento do aluno. A ênfase será dada nas seguintes áreas: linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional.
O problema do Ensino Médio não é só do E.M, é de toda a escola pública como um todo orgânico, que não ensina o clássico, os conteúdos considerados relevantes que farão do indivíduo um cidadão consciente, crítico e criativo. Se o principal da escola fosse cumprido como aquisição de conhecimentos elaborados ao longo da história, atitude, ompetências e habilidades essenciais para atuar numa democracia, como verdadeiro cidadão que conhece a história do seu país. Sem falar, é claro, que se der o valor que o professor merece, remunerando-o condignamente, proporcionando-lhe formaçao inicial e continuada, dando-lhes condições de adquirir livros, revistas, periódicos, para sua reciclagem, o resultado seria bem mais produtivo.
A educação brasileira, com essa medida, dá um retrocesso por tirar a arte, a educação física, sociologia e filosofia e deixa de fornecer uma formação integral do aluno, prejudica a formação cultural e a saúde dos educandos.Sem contar que a qualidade dos profissionais e do ensino poderá diminuir. Modalidade integral requer um bom projeto pedagógico e gastos maiores, então, por que, não pagar melhor os professores pra que eles cumpram o função social da escola que é transferir conhecimentos sistematizados, instruir, com novas metodologias, e que as políticas públicas invistam na formação do professor que é precária, na melhoria das condições de trabalho, na compra de aparato tecnológico para incrementar as aulas, aumento dos salários que são indignos. Isso tudo provocará uma mudança e exigirá uma organização complexadas redes e pode resultar em nada bem feito, como aconteceu na década de 70 do século passado, no regime militar.
Poderão, ainda, dar aula professores sem concurso e apenas com notório saber e ainda poderá haver oferta de habilitações desigual entre escolas e redes. Concluindo, se a escola cumprisse bem o seu papel, que é transferir conhecimentos clássicos, como prega Dermeval Saviani, e fizessem bem sua tarefa com metodologias inovadoras, e tivessem sólida formação acadêmica, nada disso seria preciso. A questão é que a escola faça o que sempre fez: instruir, formar valores, competências e habilidades e usar as novas tecnologias apenas como mediação pedagógica, a lição de casa estaria sendo bem feita. Esta é a minha modesta opinião.