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Acordar cedo prejudica o aprendizado?

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

Douglas Reis
Todos os dias, Juliana tem trabalho para tirar Maria Julia da cama

Na casa dos trigêmeos Tiago, Felipe e Gabriela, de 11 anos, a correria começa bem cedo. Às 5h50, Simone Malaquias, mãe dos três, já está em pé para prepará-los para a escola. “Por volta das 6h05, 6h10, eu começo a chamar. Mas despertá-los mesmo só lá para as 6h20, 6h30. Os três são difíceis de acordar”, destaca.

A dificuldade triplicada em tirá-los da cama para ir à escola está sendo sentida de forma mais intensa neste ano, quando eles passaram a entrar às 7h10 no colégio. “O horário deles acordarem naturalmente é por volta de 7h45, 8h. Antes disso, o sono é forte!”, conta a mãe.

Assim como o trio, muitos alunos sofrem para acordar cedo todos os dias. Um relatório divulgado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC – sigla em inglês) dos Estados Unidos mostra que dois terços dos alunos americanos levantam muito cedo para ir à escola, não completando o ciclo natural de seu sono. E olha que lá a maioria das escolas inicia as aulas às 8h, bem diferente das instituições brasileiras, que começam por volta das 7h ou 7h30.

SERIA MELHOR...

O médico otorrinolaringologista Carlos Henrique Ferreira Martins, especialista em medicina do sono, concorda com a pesquisa. “De maneira geral, o horário de início pela manhã das aulas para crianças está fazendo com que os pequenos tenham que acordar muito cedo. Seria melhor começar às 8h”, destaca.

Sair muito cedo da cama, às vezes antes do sol raiar, está deixando boa parte dos alunos sonolentos em sala de aula, prejudicando o aprendizado. “A sonolência diurna produz prejuízo na concentração, com consequentes danos à atenção e ao aprendizado, independentemente do horário que ocorra”, frisa o médico.

“Tem dias, no inverno, que levantamos e a lua ainda está lá no céu. Para minha filha, isso é bem complicado. Ela tem dificuldade de acordar de madrugada”, diz empresária Juliana Chab, mãe de Maria Julia Domingues Guimarães, de 12 anos.

Tanto ela quanto Simone acreditam que, se o horário de entrada das crianças na escola fosse alterado para 8h, o rendimento dos pequenos aumentaria no colégio. “Seria perfeito entrar mais tarde, pois ela teria mais tempo de sono e acordaria após o nascer do sol mesmo no inverno ou com o horário de verão! Uma das piores coisas para nós e levantar ainda de noite! Não acho saudável. Às 8h percebo que ela está mais atenta, mais desperta”, ressalta Juliana.

“Nas primeiras aulas, acho que eles ainda estão despertando, não rendem muito. Com a chegada do horário de verão, piora ainda mais. Entrando mais tarde, o ganho de rendimento seria bem grande. Existem exemplos em outras escolas, em outros países”, salienta Simone.

Ela ressalta que procura colocar os três para dormir às 22h, mas que o sono geralmente chega meia hora depois. “São muitas atividades durante o dia. Às vezes, fica uma tarefa ou outra para fazer à noite e eles demoram mais para se desligar e dormir”, diz.

Tecnologia atrapalha o sono dos adolescentes

Internet/Reprodução
Alguns pequenos resolvem até mesmo ‘compensar’ nas salas de aula as noites mal dormidas

Os pais bem que tentam, mas, com tanta tecnologia na palma da mão, fica difícil fazer os adolescentes se desligarem do mundo virtual para dormir mais cedo. Celular e tablet hoje são apontados como grandes inimigos do sono reparador. “Com certeza a tecnologia produz prejuízo no sono, se não for bem usada. O ritmo de sono das crianças deve ter critério e cuidado, respeitando a fisiologia do ser humano”, explica o médico Carlos Henrique Ferreira Martins, especialista em sono.

Ir para a cama com o celular ligado faz com que a mente fique acelerada e não relaxe para as horas de sono que virão. Muitos passam a noite nas redes sociais e, com isso, acabam dormindo pouco à noite.

Teoria confirmada pelo professor de matemática e mantenedor do Colégio Rembrandt COC de Bauru, Antonio Angelo Schiavinato. Pai de um adolescente e com a sabedoria de quem convive com os jovens diariamente em sala de aula, ele é categórico ao afirmar: “Os pais realmente estão perdendo o controle sobre as horas de sono dos filhos!”.

De acordo com ele, as famílias não estão mais conseguindo fazer os adolescentes ficarem longe da tecnologia e esse contato com o mundo virtual não tem limite de horário. “Muitos passam a madrugada conversando no WhatsApp. Eu vejo pelo celular do meu filho, que fica na sala durante a noite para que ele não prive o sono por conta do aparelho. As mensagens dos amigos se estendem até altas horas. E, no dia seguinte, esse pessoal precisa levantar cedo e estar disposto na aula”, destaca.

‘NÃO ADIANTA’

Para o professor, não tem porque as escolas alterarem seus horários para mais tarde. O problema apenas mudaria de turno. “Se as aulas começarem mais tarde, eles vão estender ainda mais a hora de dormir e vão ter sono do mesmo jeito. O problema não é o horário de acordar, é a quantidade de descanso”, acredita.

Para ele, a prática esportiva também deve ser inserida no dia a dia das crianças e dos adolescentes. Com isso, além de tirar um pouco o foco da tecnologia, os jovens sentirão a necessidade do descanso e irão dormir melhor e mais cedo.

Ele ainda frisa que levantar cedo faz parte das responsabilidades da vida e que o adolescente precisa se acostumar com isso. “Quando ele for para o mercado de trabalho, por exemplo, vai ter que enfrentar os horários matutinos. Precisa apenas adequar o organismo para descansar o suficiente”, conclui Antonio Angelo Schiavinato.

Quantidade necessária

A função do sono vai além do descanso. Enquanto a criança ou o adolescente dorme, o cérebro organiza todas as informações recebidas ao longo do dia. “Imagine que tudo o que você aprendesse durante o dia entrasse no seu cérebro sob o formato de livros, que ficariam empilhados em uma mesa, todos embaralhados. Durante o sono, estes livros seriam organizados na estante, de forma que, quando se desejasse um deles, era só ir até o local certo e pegá-lo. Se o tempo de sono for curto, não dá tempo de organizar todos os livros que estão na mesa e sobrarão alguns sem guardar. Estes ficarão fora da estante, ou seja, será informação fora da memória”, destaca texto do blog Pediatrio.

Mas qual seria o tempo necessário para que todo esse trabalho ocorresse no cérebro? Isso varia de pessoa para pessoa. Na tabela a seguir, a Associação Americana do Sono apresenta o tempo indicado de sono para cada faixa etária:

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