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Budista alerta para infância violenta

Marcus Liborio
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Marcus Liborio
Lama Rinchen durante entrevista em Bauru: reflexão sobre a infância e crença no diálogo

“A violência entre as crianças está numa ascendente nos últimos dez anos. Estou falando de violência de punho, de espancamento, atípica nessa faixa etária. Isso é muito sério”. O alerta é do monge budista Lama Rinchen, brasileiro que fez preparação no Nepal e está em Bauru para ministrar palestra gratuita amanhã.

O mestre em budismo busca, quando o debate é voltado especificamente a profissionais da educação, mostrar que o diálogo ainda é o “ponto chave” para reverter o quadro, que ele considera muito preocupante.

“O que vale entender é que a violência não surge sozinha. Inerente ao ser-humano é ele ser generoso, acolhedor”, contrasta.

“Nenhuma criança sai de casa aspirando ser violenta. Existe consumo de droga dentro das escolas, práticas sexuais entre crianças e até estupro. São coisas que, inerentemente, não são do ser humano”, diz Lama, complementando a importância de embasar a discussão na ótica do altruísmo, generosidade e resiliência, tema, inclusive, de sua palestra.

“Com os educadores, tenho debatido: ‘Como é o seu diálogo em casa, com seu filho e seu marido?’ Na verdade, não há diálogo. Culpar a tecnologia, por exemplo, não é resposta. Costumamos terceirizar a responsabilidade. O maior desafio dos pais está sendo monitorar os seus filhos, mas a educação, quando bem aplicada, não precisa de monitoramento”.

Ele ensina que é preciso mostrar aos filhos o que é bom (o que, inclusive, é relativo). “O que é bom pra mim pode não ser para você. Temos de partir da seguinte premissa: qualquer um quer ser feliz e tem aspiração de experiência de felicidade, contentamento e sucesso. Por que, então, produzir tanta experiência de sofrimento?”.

COMO REVERTER?

“Basicamente, com o diálogo. Eu me preocupo, minimamente, como observo o mundo no qual estou inserido? Eu tenho regozijo quando o outro alcança seu objetivo ou sinto inveja? Enquanto pai, mãe, o que estou mostrando a meu filho? Qualquer criança, até os 7 anos, copia o comportamento dos pais”.

Três tópicos

Jornal da Cidade - É possível ser feliz o tempo todo?
Lama Rinchen - É possível sustentar uma experiência de contentamento por um longo tempo, desde que você não perca a consciência do momento presente.

 

JC - Momento presente?
Lama Rinchen - Ao ter uma noite inesquecível com alguém, pode-se estragar tudo ao perguntar: ‘quando vamos nos ver de novo?’ A pessoa entra, então, numa ansiedade, expectativa. Sempre que nós saímos de um momento presente e já ansiamos para que aquilo se repita, imediatamente contaminamos o que aconteceu.

 

JC - Felicidade, então, é estar tranquilo consigo?...
Lama Rinchen - Se resume em não perder a legitimidade, que nada mais é do que uma experiência de profunda serenidade: estar quieto, tranquilo. Quando começamos atribuir tudo a coisas externas, a legitimidade se torna cada vez menos duradoura.

Altruísmo, gentileza, resiliência

O altruísmo, define Lama Rinchen, é uma conduta de vida que tem por objetivo produzir experiência de felicidade não só a nós mesmos, mas para os outros também. “A felicidade legítima, a partir do altruísmo, é quando eu me sinto bem ao olhar o outro sendo feliz”, resume.

Já generosidade não é dar coisas para os outros, observa. “Primeiro porque a gente dá o que não usa mais ou para se livrar daquela pessoa. A verdadeira generosidade é doar-se. Doar seu tempo para ouvir alguém, para estar com alguém”.

“Por fim, a resiliência é um espaço interior que diz: ‘eu vou acolher essa pessoa ou essa dificuldade de maneira que eu possa resolver. Um bom gestor, por exemplo, é aquele que sabe construir laços”, finaliza.

SERVIÇO

Nesta quinta-feira (27), a partir das 20h, em auditório do Teatro Municipal de Bauru, Lama Rinchen ministra a palestra gratuita “Altruísmo, Generosidade e Resiliência” como práticas da vida promotoras de uma sociedade menos violenta e mais acolhedora, informam os organizadores. Já de sexta a domingo haverá um curso (pago). Detalhes: henricas01@gmail.com. (14)  9 8191-7060.

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