Tribuna do Leitor

Brasil, momento de competir e inovar

Antonio Carlos A. dos Santos
| Tempo de leitura: 2 min

Passou da hora de não mais culpar as commodities, e sim culpar a nossa incompetência. As evidências não sustentam a visão de que commodities retardam a evolução tecnológica de um país ou sistematicamente se antagonizam com o desenvolvimento da indústria.


Talvez não exista exemplo melhor do que a própria agricultura brasileira. Um dos mais brilhantes estudos já feitos sobre o setor é o recente livro de Fábio Chaddad, professor da Universidade do Missouri (USA), onde mostra, com riqueza de detalhes, o impressionante desempenho da nossa agropecuária. De 2001 a 2010, a produtividade cresceu 4,02% ao ano, contra 1,81% no mundo e 0,8% na economia brasileira de um modo geral. Quais as causas do sucesso?

   

O setor inovou a partir do trabalho de centros destacados de educação e pesquisa, como a Embrapa e a Esalq (Piracicaba SP), que desenvolveram variedades e tecnologias adaptadas às nossas condições tropicais. A efetividade das políticas públicas adotadas foi muito maior aqui de que em outros países. De 2010 a 2012 ações de suporte aos produtores brasileiros custaram cerca de 4,6% das receitas agrícolas, contra 7,8% nos EUA, 15% na China e 53,7% no Japão.


De onde vem então o preconceito contra as commodities? Infelizmente, muitos ainda se apegam a dependência estrutural do mundo emergente à dinâmica dos desenvolvidos. Em palavras simples: exportamos soja para importar tablets. Para os críticos desse modelo, a própria especialização em commodities retarda o desenvolvimento industrial.

O problema desta visão é que ela não se casa bem com a realidade dos fatos. Existem vários exemplos de países que cresceram mesmo com foco na exploração de commodities, tais como, Holanda, Austrália, Nova Zelândia, Noruega e Chile, entre outros, todos mais desenvolvidos que o Brasil.


Em estudos recentes de três brasileiros, publicado na ilustre revista American Economic Review, os autores mostram que tecnologias voltadas para ganhos de produtividade na agricultura brasileira permitiram produzir mais alimentos com menos recursos e com isso beneficiaram setores industriais via maior oferta de mão de obra.


É evidente, e uma fonte legítima de preocupação, a elevada volatilidade nos preços das commodities, cujo vai-vem pode inibir investimentos. O remédio para esse problema não é combater as commodities, e sim desenhar ações para se beneficiar do seu ciclo. É só ver o que faz o Chile, altamente dependente de exportações de cobre, o país se prepara para aumentar investimentos públicos, e isso só foi possível porque lá se adota uma política anticíclica, poupando recursos da produção do cobre quando estão em alta, e assim atraindo empreendimentos dispostos a criar empresas nas mais diversas áreas.


Não é necessário dizer que fizemos justamente o contrário, desde 2003 até a presente data, portanto nos governos do PT. Esbanjamos recursos quando tivemos a bênção de um ciclo de commodities em alta e apostamos nossas fichas em “campeões nacionais”, que pouco agregaram à economia. Passou da hora de desenhar políticas que incentivem a produtividade de setores e empresas dispostos verdadeiramente a competir e inovar.

Comentários

Comentários