O povo brasileiro não é muito afeito e preocupado com a condição de vice, seja de um presidente da República, seja de um vice-campeão brasileiro de futebol. É sabida a preferência popular por quem sempre chega em primeiro. Essa cultura vem de longe e parece que demorará a mudar. Com a assunção de Michel Temer, de forma definitiva, ao cargo de presidente da República, novamente vem a baila a questão do vice. Segundo a historiadora da Fundação Casa Rui Barbosa, Isabel Lustosa, “a escolha de um vice-presidente não leva em consideração que ele possa assumir a Presidência algum dia”. Segundo a autora da obra “Presidentes da República”, “a escolha está baseada no tempo de propaganda eleitoral na televisão que o partido aliado possui”. Interessante lembrar que, por várias vezes e por diferentes motivos, os vice-presidentes já foram chamados a assumir.
No ano de 1954, Café Filho, vice de Getúlio, sucedeu com a morte do titular. Em 1961, após rápidos 7 meses de governo, Jânio Quadros renuncia e assume o vice João Goulart; houve uma exceção. No governo militar do presidente-general Costa e Silva, que foi afastado devido ao estado de saúde, seu vice ‘Pedro Aleixo foi impedido de assumir pela Junta Militar que governou o Brasil até a posse do general Emílio Garrastazu Médici’. Após o governo militar, com a trágica morte de Tancredo Neves, assume José Sarney e, com o impeachment de Fernando Collor, o vice Itamar Franco.
A história de poder no Brasil ainda nos apresenta outras ocasiões em que o vice-presidente é chamado a assumir de forma definitiva. Alguns, por certo, se lembrarão que durante o governo do general João Batista Figueiredo, que tinha por vice o engenheiro mineiro Aureliano Chaves, o humorista Jô Soares, brincando com ‘o menosprezo’ de ser vice no Brasil, expôs vários exemplos de que a pessoa do vice nunca é lembrada; nunca é homenageada, afirmando: “Já viu erguerem estátuas em homenagem a vice? Ruas com nomes de vice? E terminou com o bordão: “Tirante Aureliano que fala, vice não tem valor.” O atual governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, assumiu pela primeira vez de forma definitiva após a morte de Mário Covas, de quem era vice.
Aqui mesmo em Bauru, tivemos duas oportunidades em que o vice-prefeito foi guindado à condição de titular. O professor Gualberto [Tuga] Angerami, com a morte de Edison Gasparini, e o jornalista Nilson Costa, com o afastamento de Antônio Izzo Filho. A cada eleição que se aproxima, seja em que nível for, a questão da pessoa do vice sempre é relegada a um segundo plano, quando, na realidade, deveria ser justamente ao contrário.
Veja o atual governo municipal que se encerra: possui uma vice-prefeita que ao longo dos 8 anos de governo, pelo que me recordo, não chegou a assumir um dia sequer o comando da cidade. E por quê? O que teria faltado para que isso ocorresse? Motivos certamente existiram, os quais não sabemos e jamais saberemos.
Mas a pergunta que se faz é: qual a razão da escolha dela para vice-prefeita? Talvez a resposta seja o ‘tempo de propaganda eleitoral’, conforme alertado pela historiadora. Assim, acredito que ao escolher em quem votar para prefeito neste dia 30, obrigatoriamente, deveremos analisar a figura do candidato a vice-prefeito. Quem é? Qual sua historia de vida? Qual sua experiência profissional? Num eventual afastamento do prefeito, terá condições e competência para gerir a cidade?
Enfim, ‘exceto’ as brincadeiras que sempre existirão, penso que o candidato a vice-prefeito tem importância relevantíssima na eleição.
O autor é advogado