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| Com 90 anos, Zygmunt Bauman é o que melhor compreende o mundo atual! |
Nesta era de "modernidade líquida" o futuro não existe, normal é ser instável e imprevisível. O que sabemos hoje, amanhã não mais servirá. O conhecimento e os mecanismos evoluem rapidamente e as gráficas nem conseguem imprimir e nos remeter fisicamente à informação. Tudo é virtual. Exemplo: editoras e jornais repetem prejuízos em todos países!
Nada está sob controle de nada e ninguém. A realidade deixou de ser sólida e passível de pressões. A realidade agora é fluídica, como retratou o aclamado sociólogo Zygmunt Bauman ao criar o conceito de "modernidade líquida". Se não compreender isto, a sensação de frustração tomará conta de seu coração. O meu passado planejado virou história, planos só para amanhã, e amanhã cedo! A tarde não garanto nada.
Na "modernidade líquida" o coletivo predomina sobre o individual, sem ideologias e sistemas! Quase de forma caótica e aleatória, o coletivo sobrepõe e quase nada se faz por completo sozinho, tudo tem partes de cada a um a se encaixar e sobrepor. Ninguém acaba sendo dono de nada, tudo é de todos! De preferência gratuito ou barato, acessível sempre!
Hoje, repare, ninguém quer liderar, ser dono, ocupar a vanguarda, puxar a fila ou se identificar como responsável. Aos olhos dos antigos, sem liderança: para onde vamos? Que importa, o "vamos" é futuro e na modernidade líquida o futuro não importa!
Na "modernidade líquida" não se preocupe em ter ou obter informações, dados e razoes! Tudo está disponível em qualquer lugar, a um toque de tela, sem tensões. São textos e imagens maravilhosos o tempo todo acessível, não preciso preocupar-me em guardar e memorizar. Antigamente se dizia: poderei precisar depois e não ter. Calma, você terá, estará sempre a seu dispor!
As pessoas tinham bibliotecas em suas salas e casas. Médicos e advogados tinham aquelas enormes coleções de livros que impressionavam o visitante. Hoje este tipo de coisa cheira mofo, antiguidade, ácaros e ultrapassado! Para que isto, ninguém mais folheia livros e revistas em estantes. Todos digitam o assunto desejado e tudo aparece na tela: só clicar e o que se quer, aparece na hora!
Navegamos em marés de informação. Professores, educadores ou pais não conseguem mais delimitar, cercar, selecionar e conduzir alunos e filhos neste mar de conhecimento sem limites. Professores e pais não são mais os guardiões ou guias do saber em templos que existiam e sucumbiram. Bibliotecas não são mais centros do conhecimento, ele está na rua, casa, shoppings e smartphone. Conhecimento humano está diluído entre todos de forma líquida. Você o tem quando achar conveniente ou oportuno!
Útil e inútil se misturam e mudanças estão ao sabor da aceitação ou rejeição. Mudanças são frequentes: a inconstância e instabilidade representam o normal. O conhecimento novo chega primeiro nos sites e blogs do que nas universidades, bibliotecas e salas de aula. Alunos e filhos acessam o conhecimento novo mais cedo que o educador.
A modernidade líquida subverteu a figura do professor ou pai presente. A autoridade do professor está associada mais às suas características e virtudes pessoais do que à capacidade de ter e mostrar conhecimento no ensino! O professor cada vez mais será valorizado pela pessoa e não pelo profissional que representa: o coletivo predomina sobre o individual, limites entre pessoal e profissional se perderam.
A volatilidade extrapola as relações pessoais que viram experiências sucessivas. Casamentos, amizades e família transformaram-se, na modernidade líquida ficam voláteis! No trabalho a estabilidade e empregos longos não fazem parte das novas gerações. Objetos de desejo e sonhos não passam pelo local e tipo de emprego, o que vale é vida pessoal, felicidade agora.
Perguntado sobre como adequar a educação a esta realidade, Bauman sugeriu a Paideia: "um sistema de ensino e formação ética da cultura grega que inclui temas como ginástica, gramática, retórica, música, matemática, geografia, história natural e filosofia para se formar um cidadão completo capaz de liderar e ser liderado ao desempenhar um papel positivo na sociedade".
Vivamos hoje, o amanhã não nos pertence, literalmente!
Observatório
Como? Para entender o mundo atual e as novas gerações Zygmunt Bauman criou o conceito de Modernidade Líquida nas relações no trabalho, família e sociedade. O tempo e o espaço não são mais coisas concretas e absolutas, tudo passou a ser relativo como se fosse líquido. É incrível, mas Bauman é o que mais compreende e melhor interpreta o mundo atual e o jovens, apesar da idade: nasceu em 1925.
O Autor - Escreveu mais de 40 livros e o de "Modernidade Líquida" em português foi editado pela Zahar. Iniciou sua carreira na Universidade de Varsóvia e sua liquidez vem dos fluidos que não têm forma, se moldam ao recipiente, enquanto os sólidos, ou antigos, são rígidos. Os líquidos penetram, escorrem e transbordam lugares, pessoas, contornam, vão e vem como ondas do mar e no ar. Nada é seu!
Alberto Consolaro éprofessor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.
