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Região tem fãs da retrocomputação

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 10 min

Aurélio Alonso
Antonio Turino Vaz de Moura é um dos organizadores juntamente com mais amigos de evento 

O biólogo Antonio Turino Vaz de Moura é um dos "pioneiros" na região na organização de um evento para divulgar o MSX. A ideia de reunir os aficionados pelo uso deste computador criado nos anos 80 no Japão vem desde 1998. Em Jaú já foram realizados 20 e atrai pessoas de Brasília, Rio de Janeiro e de outras localidades do Brasil.

MSX foi o nome dado a uma arquitetura de microcomputadores pessoais criada no Japão em 1983 e que definia um padrão para os desenvolvedores de hardware. Foi desenvolvido por Kazuhiko Nishi, vice-presidente da ASCII Corporation, empresa japonesa que era representante da Microsoft no Japão até 1986. A retrocomputação é o uso atual ou antigo de software.

O encontro regional é uma confraria de amigos que se reúne anualmente para discutir e trocar impressões sobre o antigo computador, geralmente em um dos feriados de novembro (Finados no dia 2 ou da Proclamação da República no dia 15), justamente para dar condições de pessoas de outras localidades conseguirem vir a Jaú. Quando não é possível nas duas datas, é programado no dia 20 (Dia da Consciência Negra) que é feriado na cidade.

O hobby possibilitou ao município estar entre os primeiros do País em evento especialmente para discutir a tecnologia. Outro evento conhecido no País ocorre no Rio de Janeiro. Os frequentadores garantem que Jaú é o quarto do mundo em volume de pessoas.

A rigor, além de Antonio Moura quem começou com o evento foram o músico José Plácido Rafaneli, o Ximbica residente atualmente em Botucatu, Werner Kai de Bauru e Paulo Barbara inspirados num encontro realizado em Brasília, do qual não teve vida muito longa. Mas os frequentadores da capital federal fazem hoje o caminho inverso e vem a Jaú prestigiar o evento.

No primeiro semestre de 1998 quando da realização do primeiro encontro em Jaú lotou de pessoas de várias cidades do país e região. No mesmo ano os organizadores decidiram fazer novo evento. À época a sede foi numa casa do antigo Departamento de Meio Ambiente. Atualmente o encontro é realizado na Escola Técnica Estadual "Joaquim Ferreira do Amaral" da Fundação Paula Souza que incluiu em eventos da Semana de Tecnologia. "Estudei nesta escola no curso de eletrônica. Tudo que sei sobre computador comecei aprendendo com MSX, o que acontece com muitas pessoas que frequentam os encontros. E muitos nem são da área de informática. Por isso tem tanto amor pelo aparelho, por isso escolhemos a Escola Técnica de Jaú que abraçou essa ideia", relembra Moura. 

MSX ficou conhecido na década de 80

Emiliano Vaz Fraga formado em ciências da computação conta que o uso do computador MSX vem da década de 80 quando ainda não havia o conceito de computador pessoal. "Não era um conceito difundido no Brasil porque ninguém possuía um computador pessoal em casa."

Ele ganhou um computador do pai aos 13 anos. Na época, era novidade. O Brasil tinha uma lei rígida de reserva de mercado. Só permitia produtos fabricados no País, com objetivo de incentivar a indústria nacional. O importado custava caro de mais. Havia taxas de impostos para dificultar a entrada de equipamentos estrangeiros. "O Brasil estava defasado em relação ao mercado externo. Em termos de consumo de difusão, o País experimentou na década de 80 o que os Estados Unidos experimentaram na década de 70. Então, nessa época dos anos 80 começam a chegar o computador na casa. O MSX, a Apple, Microdigital com os TK 90, Prológica e outros fabricantes. Então são os primórdios da informática".

Emiliano lembra ainda que o equipamento custava muito caro. Para efeito de comparação o computador tinha preço semelhante a um carro popular da época. "Poderia dar uma boa parcelada no seu carro ou comprar um MSX", relata.

Os primeiros equipamentos com a marca MSX tinha 8 bits. Na realidade, foi o computador pessoal de muita gente. "Ele funcionava com fita cassete. Depois comprei uma interface de drive. Funcionava com disquete de 5 por 4 polegadas, mas posteriormente havia o 3,5. Aprendi a programar na linguagem Basic nesta máquina, cheguei a desenvolver software, espécie de cadastro de cliente, uma coisa rudimentar. Isso quando eu tinha 14 anos e cheguei até a vender."

Ao longo do tempo, surgiram diversos periféricos para MSX. No Brasil, chegaram, entre as novidades, drives de 5 1/4 externos (360 kB de capacidade) e posteriormente drives de 3 1/2 (720 kB de capacidade), expansões de memória (MegaRAM, MegaROM e memory maper), joysticks, expansores de slot e até mouses

Emiliano conta que o MSX é uma época pré-internet e foi procurado para fazer análise combinatórias de jogos da Quina. "Os apostadores faziam bolão e queriam ter mais chances nas apostas. Para gerarmos números utilizávamos o sistema de computação. Fiz muito isso", recorda.

O hobby levou posteriormente Emiliano a estudar ciência da computação. "Passei a trabalhar na área, mas o MSX tem saudosismo e nostalgia. O fato é que a gente não deixa reconhecer que esse computador foi a porta de entrada na informática. Há um detalhe que ainda essas máquinas despertam interesse. Muitas delas conseguem desenvolver hardware para contabilizar esses aparelhos antigos com a nossa realidade".

Os hardwares são as partes concretas de uma máquina, como o gabinete, o teclado, o mouse, a impressora, o disco rígido, a memória, entre outros itens utilizados na fabricação de um computador ou equipamentos eletrônicos. Esses elementos se comunicam com os demais por meio do barramento, um dos componentes da placa-mãe. No caso do MSX, as máquinas foram concebidas na fase pré-internet, porém na atualidade os aficionados conseguem desenvolver hardware para que possam navegar na rede mundial.

Para a época, Emiliano Fraga afirma que o MSX era eficiente para os padrões da informática. O equipamento foi lançado no Japão em 1983 e se estendeu até 1993. Foram dez anos no mercado. "Todas as máquinas clássicas foram sobrepujadas pelo padrão IBM PC", recorda.

O mais interessante é que ainda há mercado de peças e de equipamentos sobrevivendo mesmo com a descontinuidade da fabricação desses aparelhos há 28 anos. "Há todo um interesse em apenas manter, mas de criar máquinas novas feitas recentemente."

A sigla MSX é uma incógnita. Faz parte da lenda que seu nome significa "MicroSoft eXtended", visto que a Microsoft participou do desenvolvimento do micro, fazendo o BIOS, o interpretador Basic (o MSX-BASIC, gravado em ROM) e o MSX-DOS 1.

Segundo Emiliano, quem liderou a criação desse aparelho foi Kazuhiko Nishi, espécie de Bill Gates japonês, com o apoio de Kazuya Watanabe, executivo da NEC Corporation. "Era um gênio que convidou o Bill Gates. Na minha opinião é uma sigla de apelo comercial. O próprio criador não sabe o significado, cada hora ela fala uma coisa. Não existe definição", finaliza.

Músico usa bips para produzir arranjos musicais

O músico amador Pablo Vasques Vilalba veio de Brasília para o evento de MSX em Jaú. Já tinha participado de um similar em 1996 quando ficou amigo dos aficionados pelo sistema de computação. Ele usa a tecnologia de retrocomputação porque foi o primeiro computador que teve condições de fazer música.

"É um tipo de som que gera ondas quadradas. É o tipo de som mais simples que tem. São bips praticamente, mas já era complexo em comparação da maioria dos computadores do final da década de 80. Isso me marcou, porque a música sempre me chamou a atenção nesse sistema, nos videogames e computadores. O MSX é um computador que é possível ser programável", conta.

O MSX é um padrão adotado nos anos 80 em que várias empresas de eletroeletrônicos poderiam produzir seus computadores, manter um mínimo de compatibilidade entre eles, e ainda assim diferenciá-los, adicionando recursos novos. Mas a compatibilidade com outros micros do padrão MSX seria mantida.

Pablo recorda que com o MSX é possível fazer arranjos e produziu músicas próprias. "Há limitações, mas elas são o desafio que torna divertido. O MSX sem nenhuma expansão ele pode gerar três sons simultâneos. É possível incluir um áudio de contrabaixo, voz e outro som de instrumento de acompanhamento. Então, tenta-se fazer com isso uma música interessante.  Uma grande fonte de inspiração são os sons dos jogos de games que são bem elaboradas até".

O música conta que mesmo com o atual desenvolvimento dos equipamentos de informática o uso do MSX é para ele ainda mais desafiador, porque dá condições de buscar fazer o melhor com limitações. "A gente usa sequenciadores, é o computador que toca a música. É uma ferramenta para fazer música que eu gosto, tipo música eletrônica de videogame. A partir que é instalado expansores no MSX é possível fazer algo mais elaborado que lembrem instrumentos reais como contrabaixo e piano. Não fica muito igual, é uma tecnologia muito antiga e fica virtualmente semelhante", finaliza o músico, residente em Brasília.

Gosto diversificado

O biólogo Antonio Turino Vaz de Moura explica que o aficionado pelo aparelho MSX tem gosto diversificado. Há aqueles que utilizam o aparelho mais para videogame, outros usam para compor música e na programar novos softwares. "Até hoje se faz no mundo todo programas para MSX. É fácil de lidar com esses programas".

A partir de 1998 foi descontinuada a produção. Mesmo assim o aparelho continua sendo utilizado. Os encontros começarama partir do final da fabricação dos aparelhos no Japão. "Durante uma época parou a febre, porém a moda voltou. Chamo isso de retro computação, é o pessoal saudosista se interessando por computador e videogames antigos. A Tec Toy quer relançar o Mega Drive e Nitendinho foi relançado no Estados Unidos devido a esse saudosismos. Tudo isso é fenômeno recente, porém com MSX não houve interrupção", revela Moura.

Hobby incorpora conhecimento

A história de Wilson Viana da Silva é bem o resumo de como um hobby se incorpora na vida e se transforma em conhecimento. Atualmente ele trabalha em Planejamento e Controle de Produção (PCP) em uma empresa de embalagem em Dois Córregos que não tem muito a ver com a área de informática. Nem todos aficionados em MSX trabalham exclusivamente na área de computação.

Wilson Silva é bem o retrato da geração que conheceu a informática logo no começo da tecnologia se incorporar nas casas e nos negócios. Há a expressão "pré-história" do computador para designar esse período do surgimento dos primeiros aparelhos. "Minha experiência com informática começou aos 9 anos com os micro Sinclair TK 85 da Microdigital e depois fui conhecer o MSX fabricado pela Sharp. Essa tecnologia usava fita cassete, mas a facilidade de programar permitiu um aprendizado mais rápido."

E daí cria-se um ciclo de amizade com outros admiradores da tecnologia. Nessa época não havia a força da Internet. O recurso então trocar informações com amigos. Havia os fanzines e revistas especializadas. Isso nos tempos atuais basta um clic na Internet. "Na época não tinha, era por telefone ou por carta. Assim surgiu fazer um evento exclusivo sobre o tema. Havia um em Brasília que participamos e no retorno surgiu a ideia de realizar um encontro em Jaú que foi realizado em 1998, bem pequeno. Ainda repetimos um segundo no mesmo ano, convidando as pessoas por carta ou por telefone. Não havia e-mail ainda", recorda.

DESAFIO

O discurso de Wilson sobre o MSX ser tão popular é o da praticidade. Os primeiros PCs já existiam na época lançados pela IBM que vão marcar as próximas gerações. "Esses PCs na época ainda eram restritos e difícil de programar. Se não tivesse conhecimento elevado em informática não se conseguia nem ligar a máquina. O MSX é diferente: ligou, já está pronto para trabalhar. Acredito que a simplicidade e dominar o equipamento com a sua ideia, sem dificuldade, cativou muito", explica.

Os atuais encontros são de confraternização. Os primeiros eventos visavam a troca de informações, porém com a popularização da Internet é muito mais fácil compartilhar conhecimento. "Antigamente era troca de experiência, hoje é confraternização. Não tem retorno financeiro mais, porque a tecnologia evoluiu muito e o MSX virou hobby", cita.

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