Por óbvio que não consigo estar bem todos os dias, até porque a existência humana é repleta de circunstâncias, nem todas agradáveis. A vida adulta, sobretudo, como regra, requer alguns sacrifícios, requer equilíbrio e força para seja possível usufruirmos de algum conforto. Em meio a tudo isso, ainda há conflitos de opiniões, de sentimentos, de interesses e outras coisas tantas que, juntas ou isoladas, acabam por nos retirar do melhor estado de espírito. Preservo, no entanto, da mesma forma quando era criança, um encantamento pelo mundo e pelas surpresas que a vida pode nos apresentar.
Uma das coisas que sempre me surpreende é como novos amigos podem surgir das formas mais inusitadas possíveis. Estou certa de que cada um possui consigo alguma história de uma amizade surgida quando e onde menos se esperava. Comigo, igualmente, isso já aconteceu inúmeras vezes e, invariavelmente, agradeço ao Universo por cada uma delas, mesmo aquelas que já perdi ou que pouco ficaram em minha vida, até porque acredito que ficaram o tempo que deveriam ficar, o tempo necessário para que pudessem ensinar-me algo.
E foi em uma dessas situações que acabei conhecendo não uma pessoa, mas várias, com elas estabelecendo uma amizade bem curiosa. Como gosto muito de artes manuais, nunca perco a oportunidade de aprender alguma coisa diferente. Desde muito pequena, assim, tratei de aprender a fazer tricô e crochê, encantada com as cores, as texturas e as formas que as linhas trabalhadas pelas mãos são capazes de se tornar. Navegando pela internet, há alguns anos, descobri uma técnica japonesa pela qual, através do crochê, são construídos pequenos e delicados bonecos. Imediatamente fiquei apaixonada, mas poucos eram os livros ou tutorias disponíveis em português.
No início desse ano, deparei-me com uma série de vídeos nos quais uma moça explicava o passo-a-passo de como fazer os amigurumis, nome que os referidos bonecos levam. Algum tempo depois, já arriscando fazer os meus primeiros amigurumis, vi uma página no facebook, dedicada à técnica. Em um dos comentários, uma moça dizia que iria criar um grupo no Whatsapp para trocar receitas e dicas sobre o tema. Enviei meu número como interessada e no mesmo dia fui incluída em um grupo com quase 50 mulheres e 3 homens, das mais variadas idades, dos mais variados lugares do Brasil e com os mais variados perfis sociais e econômicos possíveis.
As mensagens foram começando de forma tímida, quase sempre sobre crochê e os amigurumis, mas aos poucos começamos a nos conhecer, a sabermos mais uns dos outros e nesses vários meses já houve comemorações de notícias de gravidez, lamentos por um aborto, conforto por um casamento acabado, felicitações de aniversários, trocas de piadas, mensagens de otimismo e tudo o que circula nos grupos de amigos, exatamente no que nos tornamos. Alguns rostos ficaram conhecidos, pois fizemos circular algumas fotos, mas a maioria de nós sequer imagina como seja o outro. Entre eles, inclusive, poucos são estudados, já que muitos são pessoas mais simples, que vivem de artesanato, que lutam pelo pão de cada dia com mais dificuldade do que eu. O bom é que, tal como se dá entre amigos, essas diferenças pouco importam.
É provável que um dia esse grupo se desfaça, mas considero um privilégio estar entre eles, compartilhar histórias de vida tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais, eis que são faces da valiosa moeda da existência humana. É muito provável que eles nunca saibam que me serviram de inspiração para um texto, nem mesmo de paradigma para palavra amizade. Sempre ocuparão mais do que espaço em meu telefone celular, pois, de um modo especial, saíram de lá direto para os melhores recantos do meu coração. No fundo, tecemos mais do que amigurumis: tecemos teias invisíveis, com linhas igualmente invisíveis, misteriosamente capazes de nos interligar nesse mundo...