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#SomosTodosChapecoense

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

Ontem, o grito não ecoou, a voz não saiu, a bola não entrou, a grama não deslizou, o apito não assoprou, o cruzamento não sobrevoou, a bandeira não tremulou, o escudo não brilhou, o hino não tocou, o drible não colou, o zagueiro não marcou, o atacante não chegou. Ontem, a bola sequer foi redonda. Ontem, o futebol não foi futebol. Foi só tristeza.


A queda do avião com o plantel da Chapecoense, colegas da imprensa, tripulação e demais vítimas deixou o mundo em lágrimas. Não as mesmas lágrimas de quando o arqueiro Danilo tirou, com o pé direito, aquela bola de cima da linha no último minuto da semifinal e que, por triste ironia do destino, carimbou a tão sonhada vaga na decisão. Agora, as lágrimas são mais pesadas, de dor. A alegria do futebol morreu ontem. E morreu apunhalada por mais de 70 golpes. 71 para ser mais exato.


E nós experimentamos o gosto amargo dessa morte. Até aquela pessoa que odeia futebol e que não sequer imagina o que diabos é um impedimento ou um gol olímpico morreu um pouquinho lá na Colômbia. E sabe por quê? Porque somos todos Chapecoense.  E tal expressão, na verdade, não serve apenas para demonstrar solidariedade com as vítimas da maior tragédia da história do esporte brasileiro. Essa expressão significa literalmente o que ela significa: somos todos Chapecoense.


Sim. É o que a gente é. Somos pequeninos diante dos gigantes que aparecem por aí; somos guerreiros em qualquer bola dividida; somos batalhadores e ficamos todos os dia com os nossos uniformes sujos ao fim da partida; somos sonhadores mesmo diante de sonhos impossíveis; somos defesa forte frente a pressão da artilharia adversária; somos aqueles que compensam a falta de técnica com o suor; somos aqueles que se salvam nos últimos segundos; e, claro, somos felizes mesmo mergulhados em tantas dificuldades. Somos... Opa! “Somos” não. A gente é! É assim que a gente fala: “A gente é Chapecoense”. E a Chapecoense é a gente. Gente como a gente.


Por isso, a morte tão repentina de gente como a gente nos assusta justamente porque rompe com a incredulidade de que existe finitude na gente. De repente, a queda de aeronave não fica só lá na Colômbia. Ela está aqui do nosso lado. Ela dá um estalo, um flash, uma epifania.


De repente, a gente percebe que gastou tempo demais com o trabalho, com a rotina e tempo de menos com a vida, com a família, com os amores. De repente, a gente percebe que se magoou demais e perdoou de menos. De repente, a gente percebe que deixou coisas demais para trás, esperando o dia certo para ir buscá-las. E este dia nunca chega. Até o dia em que ele nunca mais vai chegar.  


Certa vez, Bill Shankly (1913-1981), ex-técnico do Liverpool, proferiu a célebre frase: “Algumas pessoas acreditam que futebol é questão de vida ou morte. Fico muito decepcionado com essa atitude. Posso garantir que futebol é muito, muito mais importante”. Especialmente hoje, peço licença para pedir que o futebol seja realmente muito mais importante que uma questão de vida ou morte. Que ele seja uma questão de vida... ou viva!


O autor é editor do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia

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