Um casal traz um filho à luz, e durante logos anos alimenta, cuida e o protege dos perigos desta vida. O garoto atravessa a adolescência de maneira sadia, recebe amor, carinho, atenção e aos 21 anos tem a infeliz ideia de se inscrever no Curso de Formação de Soldados do Corpo de Bombeiros, em Cuiabá.
Os pais ficam em casa, torcendo para o filho ser aprovado. Há toda uma pressão psicológica para que o menino se encaminhe na vida. E o menino vai. Vai com medo, porque já sabe dos abusos de autoridade por parte da instrutora que detém a patente de Tenente. Se borra todo, a cada manhã, mas vai. Precisa do trabalho, deseja o emprego.
Durante uma aula prática na Lagoa Trevisan, o menino é torturado até à morte por essa desgraçada tenente cujo nome foi omitido. Sob a alegação de treinar a turma de jovens para salvamento aquático, ela afunda a cabeça dos alunos varias vezes enquanto grita palavrões e impropérios: " seu frouxo, seu desgraçado!" Alguns desistem do treinamento e saem dali marcados para sempre.
Rodrigo Claro de 21 anos, que segundo testemunhas oculares foi afogado várias vezes por essa maldita mulher, não teve a mesma sorte, e veio a óbito. Qual o nome dessa infeliz? A imprensa não fala! Fala o nome do menino, mostra a carinha do menino, mas o nome da torturadora não é divulgado. A cara dela foi livrada.
A morte desse jovem em circunstâncias tão estúpidas não é a única causa da minha indignação. Estou indignada porque todos sabemos, por denúncias vazadas, que essa prática de torturar recrutas não é nova, e é constante, em muitos treinamentos similares. Não sei o que se passa na cabeça de oficiais malignos que agem com esse nível de crueldade.
Provavelmente, consideram que para estar entre os quadros da corporação, o candidato deva demonstrar uma humanidade superior: nenhum medo, nenhuma dor, nenhum instinto de preservação da vida. Seriam todos super-homens! E o mais tragicômico de tudo: todo esse esforço sobre-humano para ganhar um salário de merda e ser submetido rotineiramente aos desmandos de superiores psicopatas. Ninguém está ali para ganhar salários astronômicos. A remuneração é absurdamente pequena para tantas exigências sem sentido.
Nesse Brasil , onde estão as entidades que defendem os direitos humanos? Direitos humanos não é direito apenas das minorias, mas parece ser. O cidadãozinho Rodrigo Claro não mereceu nenhuma consideração acerca do seu direito à vida. Nesta caso horroroso, fez-se silêncio. Tímidas notas na imprensa e nada mais. Bem perto de nós, nesse momento, onde houver um treinamento com aspirantes a cargos públicos de natureza militar, é bem provável que algum menino ou menina esteja sendo torturado.
Anos atrás, assisti a uma cerimônia militar ao ar livre, numa temperatura de 40 graus ao sol, onde um pelotão de soldados vestindo fardas pesadas, em pleno verão, foi mantido imobilizado, em posição de sentido, por quase duas horas. Até que um deles caiu duro ao chão. Não resistiu ao calor e à desidratação. Aquele foi socorrido, os demais permaneceram sob tortura. No local, estavam as mais altas autoridades do nosso município. Ninguém se manifestou sobre o assunto. Torturar soldados e bombeiros neste país parece ser algo normal.
Tenho vontade de ter uma tribuna maior para soltar a minha voz. Não tenho. Se fosse jornalista de um grande veículo de comunicação faria desse tema a minha luta. Não sou. Empresto pois o meu sentimento, e sofro com os nossos soldadinhos que não são de chumbo.
Se eu pudesse dar um conselho, a esses jovens, seria este: vendam bananas na feira, mas não vendam a vida. Fujam dos psicopatas. Corram, gritem, denunciem, batam a bota, sacudam o pó dos seus pés, e sejam felizes, sem olhar para trás.