Articulistas

Murro no estômago

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Era a TV Cultura. Mais precisamente, o programa Roda Viva. A pergunta: “Juca, afinal o que você aprendeu de mais verdadeiro em toda  sua vida?” O consagrado ator e autor Juca de Oliveira era  o entrevistado. Uma pausa. Pensou, pigarreou, disparou: “O homem, isso mesmo, o homem foi  uma experiência que não deu certo!” Telespectando no sofá, recebi o golpe, um soco no estômago, forte demais. O programa terminou e o tempo passou. Não a frase-murro, que comigo ficou e  até hoje me persegue. Ecoa forte nos meus ouvidos, e me golpeia  a cada notícia monstruosa desse  homem que não deu certo.


No Telegram Messenger,  muitos são os anúncios  de venda de armas e equipamentos militares postados por soldados islâmicos. Até aí, nada demais. De repente, um tapa na cara. Por 12.500 dólares,  está à venda uma escrava “virgem e bonita”. A menina só tem 12 anos. Não dá pra aceitar. É brutal. É desumano. Vendidas pelos jihadistas, essas meninas não são meninas, são nacos de carne-sexual, carne-escrava  exposta em concorrido mercado de homens-bichos. Homens que não deram certo. Murro no estômago!


Brasília, 1997, uma noite pra esquecer. Cinco jovens de classe média, um galão de gasolina e uma caixa de fósforos. Resultado: o índio Galdino foi queimado vivo enquanto dormia num ponto de ônibus. “A gente tinha fumado, tinha cheirado, mas tava faltando adrenalina... aí a gente viu o homem dormindo... O delegado não se aguentando, estrondeou: Absurdo!!!, vocês mataram o índio! A resposta não podia ser pior: A gente não sabia que  era  índio, a gente pensou que era  mendigo. Murro no estômago!


Como um pai pode  jogar a filha pela janela do sexto andar? Aos cinco anos, em 2008, assim  terminava a vida da pequena Isabella Nardoni. Emudeci, não encontrei adjetivo, só revolta,  completa incompreensão. Murro violentíssimo no estômago.  Chega! Não quero falar mais disso. Exemplos da sordidez humana não faltam nos jornais de tanto sangue e dor. Mas esse texto está pesado demais, nenhuma razão para  continuar constatando o óbvio: não há limite para a monstruosidade humana, bicho que não deu certo.


Então a televisão novamente me surpreendeu. Um estádio de futebol lotado em Medellín, uma multidão de homens, mulheres, crianças, famílias, enfim uma massa humana vestida de branco, velas nas mãos, bandeiras, todos cantando, todos chorando e aplaudindo um jogo de futebol que ali não aconteceria. Muita gente não conseguindo entrar, agia com a mesma emoção nas cercanias do estádio. Tudo muito estranho: a torcida colombiana torcendo pelo time adversário: a nossa Chapecoense; a torcida colombiana vestindo a camisa do adversário, a  brasileira; a torcida colombiana, abdicando da taça,  insistia que ela ficasse para sempre nas mãos dos adversários mortos.


Confesso nunca ter visto nada igual e confesso que nada disso  esperava mais ver. Não eram bichos-homens. Nem aquelas uniformizadas torcidas babando a violência e o ódio  costumeiros. Era gente-humana liberando a energia mais fraterna possível, chorando por quem não conhecia, sofrendo a morte de adversários. Então aquilo que, teoricamente, talvez eu soubesse fez-se verdade viva, concreta, fotografada, documentada para sempre pelas lentes midiáticas.


É possível sim que sejamos irmãos de quem nunca  conhecemos, é possível sim a irmandade entre adversários. Não  importa a cor da camisa, a   cor do partido político, a crença ou a descrença na divindade, a sexualidade assumida, essa coisa de  direita e de esquerda... Nada que tente dividir os homens pode ser maior do que um estádio lotado pra não ver jogo nenhum. Nada pode ser maior que um estádio lotado torcendo e sofrendo pela humanidade que ainda existe em nós. Antes de qualquer diferença, somos irmãos.


O homem é sim uma experiência que pode dar certo. Nada vi, confesso, que me ensinasse tanto. Alívio no estômago.  


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras curso_romag@uol.com.br

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