Regional

Caminhão atropela e mata 3 crianças

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

Macatuba - A cidade de Macatuba (55 quilômetros a Sudeste de Bauru) está de luto. Três crianças foram atropeladas e mortas por um caminhão Volvo, anteontem à noite, no Núcleo Habitacional Santa Rita. O motorista do veículo fugiu do local sem prestar socorro às vítimas. Até à noite de ontem, ele continuava foragido. Um misto de comoção e tristeza tomou conta da população que compareceu em massa ao velório coletivo. As famílias clamam por justiça.

O acidente aconteceu por volta das 21h, na quadra 3 da rua Equador. As três vítimas fatais acompanhadas de outras crianças brincavam de escolinha na calçada, mais precisamente sobre bancos de madeira.

O caminhão Volvo NL 10-340, placas KTH 9967/Cuiabá/MT, conduzido por José Zacarias Filho, 41 anos, por motivos ainda ignorados, que serão apurados pela polícia, subiu no passeio e atropelou as crianças. A menina Natália Daiana Manoel, 13 anos, foi jogada a poucos metros de distância, e chegou a ser socorrida, mas morreu no atendimento médico.

Ana Paula Pires da Rosa, 12 anos, e Gustavo Lopes da Silva, 7 anos, foram arrastados e prensados pelo caminhão contra o muro da casa 3-37. Os dois ficaram sob as rodas do veículo e morreram no local. Joselia Lopes da Silva, 10 anos, irmã de Gustavo sofreu ferimentos e teve que ser internada, mas ontem mesmo foi liberada.

Fabiana Elis Ribeiro, 16 anos, ficou levemente ferida, foi atendida e dispensada da internação. Outras crianças que participavam da brincadeira conseguiram sair da rota do caminhão ilesas.

Após o caminhão bater contra a residência 3-51, o condutor fugiu. Testemunhas ressaltaram na polícia que ele estava com aparência de embriagado. Até o final da noite de ontem, a polícia continuava tentando localizá-lo. Uma equipe do Tático 4 da Polícia Militar de Bauru estava na cidade em apoio à PM de Macatuba.

Fato raro

Há mais de 10 anos que na cidade de Macatuba não era registrado um acidente dessas proporções, segundo dados da Delegacia de Polícia. O último acidente grave com mais de 20 vítimas fatais, envolvendo moradores ocorreu em 1997, na estrada Bauru/Jaú, com ônibus de bóia-fria.

Na área urbana, os acidentes de trânsito são raros na cidade que concentra cerca de 17 mil habitantes, em sua maioria lavradores de baixa renda.

O condutor do caminhão, segundo informações extra-oficiais, faz parte de uma família de caminhoneiros. De acordo com testemunhas que não quiseram se identificar, o caminhoneiro teria aproveitado o feriado do Dia do Trabalho para tomar umas “biritas”. Segundo elas, ele teria tomado três cervejas em uma churrascaria, no horário do almoço, e estaria a pé.

Mais tarde, já com o veículo, o motorista teria passado horas no bar do “Paletó”, de onde teria saído na companhia de mais uma pessoa, segundo o testemunho dos moradores. “Estavam em dois no caminhão. Eu acho que ele abaixou para pegar alguma coisa no veículo ou para mexer no rádio e não conseguiu voltar o volante”, disse uma testemunha à reportagem.

Uma outra pessoa, que alega conhecer o camionheiro, informou que estranha o fato dos moradores da cidade dizer que ele estava embriagado. “Ele é muito honesto e trabalhador. No feriado, ele havia feito um procedimento na boca e nem estava bebendo muito.”

Hipótese

A Polícia Civil de Macatuba instaurou um inquérito para apurar os fatos. Após ouvir as testemunhas e envolvidos é que decidirá em quais crimes o condutor poderá ser enquadrado.

Segundo a polícia, ele pode responder por crime de direção perigosa (caso se prove a embriaguês), por omissão de socorro, lesão corporal e por homicídio triplo.

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‘Foi uma crueldade’

Macatuba - A agricultora Eva de Lima sofreu um choque duplo, na noite de quinta-feira. “O meu caçula Gustavo e a minha filha Joselia sofreram ferimentos no acidente. O Gustavo morreu e ela está fora de perigo. O que fizeram com eles foi uma crueldade. Estou inconformada.”

A mãe acha que bebida e volante não combinam. “Um homem de 41 anos tem que saber que quando bebe não deve dirigir. Eu acredito que ele estava embriagado. Quero justiça. Sei que isso não vai trazer meu filho de volta, mas quero vê-lo pagar pelo erro que cometeu.”

A maior revolta da agricultora é que o local não oferecia qualquer perigo. “É uma rua sem grande movimentação de veículos. É uma reta e não tem explicação para o que o motorista fez.”

A mãe de Ana Paula Pires da Rosa não conseguiu conversar com a reportagem do JC. Ela estava em estado de choque e não soube expressar o sentimento que a abatia. Segundo informações da família, a menina era filha única. O pai teria morrido recentemente. A mãe e ela moravam com a avó, no mesmo bairro onde ocorreu o acidente.

Salvem minha filha

Cleusa Machado Manoel tinha ido visitar o irmão que estava doente e quando retornava para casa viu uma multidão. “O acidente tinha acabado de acontecer. Vi minha filha Natália jogada no chão e peguei ela no colo. Comecei a gritar; salvem minha filha. Ela é a minha caçula.”

A menina foi socorrida, mas não resistiu aos ferimentos e morreu. “Ela estava brincando de escolinha com as outras vizinhas. Morreu na inocência”, gritou de dor.

Cleusa contou que há dois meses perdeu sua mãe e ontem perdeu o irmão. “Meu irmão nem ficou sabendo que a Natália tinha morrido, na noite anterior. Ele estava doente e nós não contamos. Perdi três integrantes da família em menos de três meses.”

O pai de Natália, Miguel Aparecido Manoel, promete recorrer à justiça. “Não é vingança. Nada vai trazer minha filha de volta, mas eu quero que se faça justiça. Se o motorista estava bêbado, vai pagar por isso”.

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‘Acabando o mundo’

Benedito Messias Ribeiro, morador de Macatuba, estava assistindo um jornal na TV quando ouviu o estrondo provocado pelo impacto do caminhão contra o muro da casa de seu filho, localizada na rua Equador, 3-37, onde mora. “Tive a impressão que o mundo estava acabando. O impacto foi violento. A casa trincou inteira.”

Ribeiro saiu correndo para a rua e se deparou com o caminhão encaixado na frente de sua casa. “Ele entrou na frente de minha casa e foi arrastando o muro com as crianças até a casa vizinha, onde derrubou parte da área da frente.”

As duas filhas menores de Ribeiro também brincavam na calçada. “A primeira coisa que me passou pela cabeça foi que o caminhão havia atropelado minhas meninas. Mas o desespero logo passou quando elas começaram a gritar. Conseguiram ficar fora da rota do veículo desgovernado. Foi um milagre.”

O carro de Ribeiro, um Monza, também foi afetado. “O caminhão derrubou uma viga da garagem sobre o carro. Não sei quem vai pagar todos os estragos. O motorista aproveitou do desespero nosso e fugiu. Eu nem vi o rosto dele.”

O morador da casa 3-29, também atingida pelo caminhão, diz que viveu um pesadelo. “Eu estava deitado quando ouvi um estrondo. Eu pulei da cama e sai para a rua para ver o que estava acontecendo. Vi a Natália caída na rua e a Ana Paula embaixo do caminhão. A cena ficou gravada na minha cabeça. Não consegui dormir a noite toda.”

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