| Malavolta Jr. |
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| Oswaldo Speri: "O mundo vive em conflito em diferentes lugares. Têm crianças morrendo de fome e outras morrendo com os pais ao atravessar o mar em busca de uma chance" |
Quem convive ou já teve o prazer de bater papo com Oswaldo Speri dificilmente seguirá seu dia sem sorrir. O bancário aposentado, que deixou marcas de sua trajetória de ação social e solidária por todas as cidades por onde passou ao longo de sua carreira, tem no bom humor uma ferramenta de relações sociais. Para Speri, presidente do Lions Centro e da Creche Berçário São José, a vida já tem pedras demais para serem suplantadas. Então, a seu modo, lançar uma "tirada" de humor para ver o sorriso desabrochar no rosto alheio é uma forma de minimizar as durezas, sem deixar de lado o compromisso que cada um carrega.
E foi assim que Oswaldo Speri visitou o espaço Café com Política do Jornal da Cidade, onde contou um pouco sobre suas andanças e seus valores. Ao longo de 31 anos de atividades como bancário, o aposentado chega aos 81 anos com vitalidade e vontade de continuar servindo. "Deus tem me usado bastante. E me sinto bem servindo. Vou continuar dando minha contribuição", enfatiza. Leia abaixo os principais pontos da entrevista:
Jornal da Cidade: A trajetória do senhor renderia um livro. Então, vamos começar pelas suas andanças...
Oswaldo Speri: Vim pra Bauru em 1947, no pós-Guerra, em virtude de meu pai vir trabalhar na cidade como estafeta, onde ele entregava correspondências pelos Correios. Sou natural de Pederneiras e por isso recebi o apelido com o nome da cidade, ou só Pé para alguns. Em 1 de agosto de 1953, eu entrei como contínuo do Banco Nacional Paulista em Pederneiras. E uns três meses depois eu fui efetivado como funcionário e três anos depois fui transferido para Santos como subcontador, uma realidade da época na ascensão na carreira. Dois anos depois, o Banco Português do Brasil encampou o então Banco Nacional Paulista e permaneci por mais dois anos nessa estrutura. Depois, eu fui chamado de novo a Bauru para ser subcontador aqui. E aí comecei a percorrer cidades do Interior na carreira como bancário.
Jornal da Cidade: Por onde o senhor passou deixou ações sociais de sua interação com essas comunidades?
Oswaldo: Por onde passei, eu fui abraçando atividades sociais. Acho que foi uma relação natural de envolvimento. Deus tem me usado bastante. E sinto bem servindo. Em Flórida Paulista, eu fui campeão amador do Estado como dirigente do clube lá, como vice-presidente. Eu assumi o time, contratei alguns jogadores e permaneci por lá. Eu encabecei um projeto de instalar infraestrutura social no Clube Recreativo Guanabara, com piscinas, quadra de basquete, de vôlei, salão. Comecei a participar de campanhas com amigos. E ia entrando em tudo que era chamado. Um grupo me chamou para conseguir colocar quatro relógios na Igreja Matriz, entrei no grupo da organização da Festa do Vinho e venderam mil canecas. Eu e um ex-combatente, amigo, vendemos 674 canecas. Era interação e em trabalho social, com envolvimento na igreja. Eu fui bastante participante, sempre. Eram encontros de casais, escolas de cursilho, festas. Tudo o que eu podia eu participava. Me sinto bem assim até hoje.
JC: Com essa experiência acumulada, foi acumulando participações nas cidades por onde passou?
Oswaldo: Olha, graças a Deus fiz amigos, muita gente, pelas participações em ações sociais nas cidades por onde passei. Foi assim em Flórida Paulista, Tupã, Presidente Prudente, Presidente Epitácio, Mirante do Paranapanema e é assim em Bauru. Graças a Deus. Isso me faz bem. Contribuir é muito bom. Em Tupã, o grupo que eu participei ajudou a construir casa que hoje serve de ensino teológico para a Diocese. Em Prudente foi criada uma creche. Em Mirante do Paranapanema, eu fiquei mais tempo, e lá deu para ajudar a criar a Guarda Mirim. O gerente de banco tinha mais prestígio naquela época do que hoje. E, com amigos, clientes, foi possível construir sete casas para famílias pobres. Deu para comprar um terreno em frente à casa paroquial, onde há também escola de ensino teológico. Me aposentei em 1986 em Tupã e voltei para Bauru para cuidar da vida. E aqui continuo no Jardim Bela Vista. A família estava aqui e não fazia sentido continuar fora.
JC: E em Bauru não parou com ações sociais?
Oswaldo: Continuei servindo, sobretudo a partir da relação religiosa. Um grupo com alguns casais trouxe a terceira etapa do Encontro de Casais em Bauru. De repente, minha esposa ficou muito doente e permaneceu por anos sofrendo, até falecer em 2008. Mas eu continuei atuando. Ajudei a fundar a Creche Rainha da Paz e hoje, depois de anos de atividades, fui chamado a ser presidente do Lions Centro, o mais antigo de Bauru, e a presidir a Creche Berçário São José. Peguei a creche em setembro de 2009. Muita dívida e problemas de gestão. Deu trabalho arrumar a casa. Mas, olha, quando você mostra planejamento, controle sério, gestão, diálogo aberto com parceiros e funcionários, a coisa começa a funcionar. Muita gente do bem ajuda, muitos anônimos. Eu sou presidente, mas é um coletivo de gente que sempre participa, com doações financeiras, com entrega de produtos ou serviços. Quem faz ação social tem de pedir. E se quem pede faz gestão correta, fica mais fácil arrumar parceiros e colaboradores.
JC: Não fosse o espírito de solidariedade, muitos não teriam assistência básica na periferia?
Oswaldo: A solidariedade fala mais alto ao coração das pessoas, mesmo em uma fase difícil como agora para todos. Porque atuamos com pessoas muito carentes, muitas crianças de famílias de condenados, que estão no sistema penitenciário e que vieram para Bauru para ficar mais perto de seu familiar preso. E essas famílias têm dificuldade em se estabelecer. E essas crianças sofrem mais. Um caminho para atrair colaboradores é levar o interessado na entidade para conhecer como funciona e quem está lá, quem são os servidos. Isso gera motivação e comove. Agora é preciso que quem atue na área tenha amor ao que faz e seriedade porque mexe com doações dos outros. Os desvios prejudicam duas vezes. Porque os desvios espantam quem tem boa vontade de doar para quem atua com responsabilidade e reduzem o que chega a quem precisa. Nós temos compromisso com planejamento, controle e prestação de contas. Falei com o novo prefeito Gazzetta que ele faça o que puder para aumentar os repasses porque as entidades fazem um trabalho importantíssimo. Agora também tem de aprimorar a fiscalização porque é recurso público e quem não sabe trabalhar não pode ficar contaminando o meio. Isso prejudica muito quem trabalha direito.
JC: Que mensagem o senhor deixa para esse momento de crise, de desesperança em relação às instituições e ao próximo?
Oswaldo: O mundo vive em conflito em diferentes lugares. Têm crianças morrendo de fome e outras morrendo com os pais ao atravessar o mar procurando alguma chance de viver. O homem prefere matar do que agir pelo outro. Se não cuidarmos das crianças, o País ficará eternamente nas mãos de bandidos, de manipuladores. Nós adultos estamos dando péssimo exemplo. Precisamos ter mais vergonha na cara e cuidar dos idosos, das crianças. Isso não é viver como ser humano. Temos muito o que aprender.
Perfil
Oswaldo Speri, 81 anos, viúvo, aposentado
Presidente Lions Centro e da Creche Berçário São José
Esposa: Maria de Lourdes Basílio Speri (falecida)
Filhos: Sérgio Henrique e Maria Raquel
Time: São Paulo
Hobby: Pescaria, jogo de truco
Música: Seresteira
Profissão: Bancário aposentado
email: oswaldosperi@uol.com.br
