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Unidos pelo amor e pela doação ao próximo 

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Renan Casal
O casal já soma 61 anos de união matrimonial 

Quando dona Weide Cóffani Nunes e Francisco Ferreira Nunes, o "seo" Xiko, abriram o portão da residência onde vivem, a simpatia e alegria do casal também deram as boas-vindas.

Porém, mais do que sorrisos, o casal abriu sua vida para contar também suas histórias de luta e superação. Cada um com a sua, no início da vida e, depois, juntos, por mais de 60 anos. São 61 anos de casados e uma família composta por cinco filhos, 11 netos, dois bisnetos e outro a caminho.

E por falar em família, juntos, os dois trabalham e sempre trabalharam voluntariamente para ajudar casais a se unirem. Foram ao menos 15 anos na Pastoral Familiar, além de outros 15 a frente da Campanha da Fraternidade. "Essa ajuda que ofertamos se volta para nós mesmos. Quando ajudamos, refletimos também sobre nossas vidas. E, trabalhando juntos, ficamos mais unidos", comenta dona Weide. 

Quando indagados sobre os segredos de uma união feliz e duradoura, "seo" Xiko ensina: "O casal precisa se desnudar de seus problemas em confiança total na frente um do outro. É isso o que procuramos passar. Feito isso, eles conseguem orientar bem os filhos e passar bons exemplos". Neste domingo de Natal, confira a história de um casal que é exemplo de união e doação ao próximo. 

Jornal da Cidade - Vocês nasceram em lugares distantes um do outro. O senhor no Piauí e a senhora aqui, no Estado de São Paulo. Quando e onde as duas vidas se cruzaram? 

Francisco Ferreira Nunes (Xiko) - Tudo começou em São Vicente, no Litoral de São Paulo. 

Weide Cóffani Nunes - Em um bonde (risos) que ligava São Vicente a Santos. 

Xiko - Ela trabalhava em uma farmácia e passava na frente do quartel onde eu trabalhava. Lembro-me até do horário, umas 11h, praticamente todos os dias. O bonde superlotado. A gente viajava pendurada (risos). E eu vi essa garota em pé quase na minha frente. Falei para um amigo meu que iria me casar com ela.

JC - O amor à primeira vista foi correspondido?

Weide - Eu tinha 17 anos e nunca havia namorado. Nem pretendia. Algumas pessoas diziam até que eu seria freira. Eu o via no bonde, mas nunca percebi que ele estava me paquerando, porque ele era discreto. Porém, eu notava que ele aparecia em algum momento do dia. 

Xiko - Mas eu fiquei seguindo os passos dela de longe. Descobri onde ela morava, quais eram os seus horários de bonde e ônibus. E eu sempre entrava nas mesmas conduções. Até que o bonde dela atrasou em um determinado dia e eu me aproximei para puxar conversa. Entramos no ônibus e ela rapidinho saiu de perto de mim (risos). Mas, quando ela desceu em Santos, eu já estava na porta esperando. Dei a mão para ela descer e a levei até a escola. Fiz isso outras vezes até que um dia, chovendo, ela abriu a sombrinha e eu tive a chance de colocar a mão no ombro dela. 

JC - E o namoro engatou?

Xiko - Naquele dia de chuva, em 1952, eu perguntei se ela queria casar comigo depois de três anos (risos). 

Weide - E eu achei aquilo um absurdo, mas não é que nós nos casamos depois de três daquele pedido mesmo (risos). Estamos casados há 61 anos. São cinco filhos, 11 netos, dois bisnetos e mais um a caminho.

JC - O senhor é militar do Exército. Qual foi a sua trajetória profissional?

Xiko - Eu sai de Teresina aprovado para a Escola de Sargento das Armas, no Rio de Janeiro. Fiquei 20 dias apenas e me mudei para Três Corações, em Minas. Lá fiz meu curso e escolhi a cidade de São Vicente, em São Paulo. Já casado, eu fui transferido para Bauru, vim para o Tiro de Guerra. Mas, em 1965, fui para o Tiro de Guerra de Promissão, para reabrir a unidade de lá. Fomos para lá já com quatro filhos. Ficamos durante seis anos, de sargento virei subtenente e fomos para Osasco. Fui promovido a tenente e voltamos para Bauru, para a 6.ª Circunscrição do Serviço Militar (CSM). Daqui não saí mais. Fiquei até 1982, quando fui transferido para a reserva remunerada como capitão do Exército.    

JC - Como foi a vida do senhor em Teresina?

Xiko - Tive uma infância e juventude boas. Em Teresina eu fui estudante. Estudei em boas escolas. Meus pais tiveram oito filhos, um de meus irmãos me incentivou à carreira militar. Eu queria mesmo era ser agrônomo, mas deu tudo certo, graças a Deus. Mas antes disso, joguei muito futebol com os amigos da rua, nadamos e pescamos nos rios Parnaíba e Poti.

JC - As lembranças da juventude da senhora também são boas? 

Weide - Sim. Nasci em uma cidade de montanhas. Meu pai plantava bananas e eu e minhas irmãs subíamos as montanhas para levar comida para eles. Era uma delícia, a gente vivia brincando nos riachos, andando a cavalo... Sempre comentamos que a pobreza não é infelicidade. Éramos pobres, mas muito unidos e felizes. Eu não estudei muito naquela época, porque só havia escola até o quarto ano do primário. Eu voltei a estudar depois de casada porque senti necessidade devido ao meu trabalho na igreja. Eu me formei no magistério, mas dei poucas aulas porque tinha cinco filhos para cuidar. Tinha a minha própria escola em casa (risos). E ele também estudou mais depois do casamento, fez faculdade de geografia e também deu aulas. 

JC - Vocês formam um casal muito ligado à igreja católica. Quais são os trabalhos que vocês já realizaram dentro da igreja?

Weide - Nós dois nascemos em famílias católicas. Aos 13 anos eu já era catequista e ele também cresceu na igreja, participando de grupos de jovens em Teresina. Juntos trabalhamos durante muitos e muitos anos pela comunidade e ainda trabalhamos. É um trabalho diocesano. Trabalhamos muito na Pastoral Familiar, reunindo os casais para estudos da vida conjugal. A ideia é manter a união do casal, ajudar os casais a se entenderem. Damos aconselhamento para muita gente até hoje e fomos coordenadores desta pastoral durante 15 anos. 

JC - Qual é o segredo para manter uma relação por mais de seis décadas? 

Weide - Nós não percebemos o tempo passar. Não fosse o espelho, eu não notaria que envelheci (risos). 

Xiko - Mas a regra de ouro para todo casal é sinceridade e diálogo conjugal. O casal precisa se desnudar de seus problemas em confiança total na frente um do outro. É isso o que procuramos passar. Feito isso, eles conseguem orientar bem os filhos e passar bons exemplos.  

Weide - E essa ajuda que ofertamos se volta para nós mesmos. Quando ajudamos, refletimos também sobre nossas vidas. E, trabalhando juntos, ficamos mais unidos.

JC - Vocês também coordenaram a Campanha da Fraternidade, certo? 

Xiko - Sim, saímos da coordenação da Pastoral da Família para a Campanha da Fraternidade, da qual também já participávamos. Ficamos na coordenação da campanha durante outros 15 anos. Animamos a campanha de todas as 41 paróquias da Diocese. É um trabalho muito bonito e organizado. Hoje somos membros da equipe.   

Weide - O trabalho na igreja é algo necessário, porque as paróquias precisam da ajuda dos fiéis. Sentimos que todo esse trabalho sempre foi uma missão em nossa vida. Já chegamos a preparar 300 casais de noivos em um único ano.

Perfil

Francisco Ferreira Nunes (Xiko) tem 84 anos e nasceu em Teresina, no Piauí 

Weide Cóffani Nunes tem 81 anos e nasceu em Miracatu/SP

O casal tem cinco filhos: Francisco José (Xiko Cóffani), Maria Bernadete (Bila), Antônio Saulo, Kláudio Cóffani e João Vicente  

O hobby dele é colecionar marcas de cigarro do mundo todo; o dela é o artesanato

O livro de cabeceira do casal é a Bíblia

Ambos gostam de músicas românticas, como as de Roberto Carlos

Nota 10

Ele dá para o esforço do Brasil em moralizar a política. Ela dá para a família

Nota 0: Ambos apontam o alto nível de corrupção no Brasil  

E-mail (dos dois): francisco.weidenunes@gmail.com 

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