Tribuna do Leitor

'Se Vira'

Rafaela Rosa é jornalista e autora do livro Pensamentos Rabiscados
| Tempo de leitura: 3 min

No começo assusta, não é qualquer pessoa que tem capacidade de lidar com uma frase tão impactante. Se virar é uma expressão que pode ser interpretada de maneiras infinitas. A vida obriga a nos virar em relação à saudade, aprender improvisar diante de situações inesperadas com as quais o roteiro não funciona. Eu tinha uns seis anos quando minha mãe disse pra eu me virar. Ela estava arrumando a casa e meu irmão chorando, foi a primeira vez que eu preparei a mamadeira dele e quando eu disse: “Como eu faço, mãe”? Ela respondeu brava: “Se vira”. Realmente, eu me virei e enchi a mamadeira de nata com Nescau (risos). Apanhei, mas não me arrependo. Naquele dia eu fiquei muito triste pela maneira como ela falou comigo. Levei alguns anos para entender que ela estava fazendo naquele instante o que a vida iria fazer constantemente.


Tive um professor de física na época do colegial que era da mesma maneira. Ele era exigente, cobrava e fazia a gente extrair o melhor que havia em nós. Eu sempre fui péssima com números. Porém de tanto aprender a me virar, fechei o ano com nota dez em todas as provas que o professor Inácio aplicou naquele ano. Ele forçava a sair o resultado certo e não aceitava menos que isso. Durante as inúmeras crises de asma eu senti muitas dores e não conseguia comer, ouvi do médico algumas vezes, “se vira, come ou morre”. Sempre estive cercada de pessoas bem sinceras, eu as considerava difíceis de lidar. Entretanto, foram meus anjos do destino, me moldaram no fogo (mais risos). Meu orientador do mestrado era meu malvado favorito, eu o chamava de destruidor de sonhos. Vivia falando par sair do senso comum e me virar para ter raciocínio crítico. Avisava que a vida não era o conto de fadas que eu pintava e que precisava engrossar o casco pra ter a bagagem respeitada. Eu chorava, ficava com raiva, estudava o dobro e escrevia tudo novamente. Ele nunca elogiou, mas vê-lo aplaudir a apresentação da dissertação e ser “aprovada com louvor” valeu cada “se vira” que foi ouvido ao longo de dois anos.


Na vida profissional foi do mesmo jeito, só que um pouco mais forte. Eu achava que não era boa o suficiente, o problema é que o processo de lapidação é extremamente doloroso. E se hoje sou uma jornalista com mestrado, autora de um livro e produtora premiada é porque no meu caminho encontrei pessoas extraordinárias que me ensinaram que ser forte é a minha única opção. Se quiser ser destaque em algo não faça o que a maioria faz. Se virar é ser livre o suficiente para não depender de ninguém, é ter o controle da situação. O mundo anda sem espaço para quem cria problemas, aqueles que aprendem a se virar são os que trazem a solução. Eu agradeço aos meus mestres, sou dona de mim e moldo o destino da maneira que acredito ser melhor. Quando alguém falar pra você se virar, agradeça, é sinal de que aquela pessoa vê em você um talento que você desconhece. Se vire uma vez e nunca mais dependa de ninguém. 

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