Cultura

Vida cotidiana distante do Centro rende livros com muitos "causos"

Roberta Pennafort
| Tempo de leitura: 3 min

Reprodução/Facebook
Anderson França e livro “Rio em Shamas”: “Na zona sul te olham e já cantam ‘Madureiraaaa’”

“Eu achava que de noite uns satanases entravam no meu quarto pra me atormentar. Isso até o dia que minha mãe me disse: ‘Cavalcanti é muito longe. Satanás não vem aqui, não.’” Morando e circulando a vida inteira nos subúrbios do Rio (Madureira, Piedade, Cascadura, Méier, Encantado...), Anderson França, o Dinho, tem histórias para contar sobre um Rio onde faz 40 graus e fica longe da praia.

O Rio do trem, da favela, da umbanda, do botequim, do samba, das festas de Cosme e Damião e de São Jorge.

Dinho começou no Facebook, onde seus textos alcançam milhares de compartilhamentos, e acaba de estrear no mercado editorial, com “Rio em Shamas” (Objetiva).

A crônica que começa em Cavalcanti e desemboca no Carrefour de Del Castilho - “o mais perto que cheguei da França” - tem os ingredientes do melhor de Dinho, como é chamado desde antes de começar a trabalhar como porteiro, regente de coral, vendedor de plano de saúde, de persiana, de sanduíche natural, quentinha e camiseta, entre outros ofícios.

Tem relatos pessoais, humor, crítica social, gírias, neologismos. Ao mesmo tempo em que enriquece as narrativas sobre a cidade, ele deixa clara a sensação de ser um “outsider” na zona sul turística e praiana.

“Não circulo pela zona sul. As pessoas te olham como alguém exótico, já cantam aquela música que fala “Madureiraaaa” (“O Meu Lugar”, de Arlindo Cruz). Todo mundo foi a Nova York, Alemanha, Amsterdã, qualquer café é R$ 10”, diz o autor, que tem 41 anos e não prevê uma longa carreira na literatura.

“Não me considero escritor, não me preparei para isso. Nunca fui o aluno que escrevia bem, sou um cara raso que começou a escrever por acidente. Passei 40 anos calado”, conta.

Dinho começou com um blog em 2009 para falar de assuntos ligados à segurança pública, mas foi aconselhado a “mudar de assunto” quando denunciou abusos policiais. Em 2011, criou a primeira agência de publicidade numa comunidade, a Dharma CC, no conjunto de favelas da Maré, na zona norte.

Dois anos depois, fundou a Universidade da Correria, que funciona num galpão no centro. Voltada a pequenos empreendedores de ramos como moda, marcenaria, fotografia e culinária, a iniciativa oferece quatro meses de aulas de gestão financeira e marketing, entre outras disciplinas de aplicação prática, e tem hoje quatro mil alunos e 200 negócios em atividade. “É a minha vida. Se você perguntar onde está o meu amor, é ali, e não na literatura.”

OUTRO EXEMPLO

Aos 28 anos, Vitor Almeida transformou-se em outra referência de subúrbio no Facebook. Com 200 mil curtidas na rede social, o perfil “Suburbano da Depressão”, que desde 2012 ele mantém sozinho, rendeu o livro “Suburbano da Depressão: Causos, Contos e Crônicas (Autografia)”, também recém-lançado.

Estudante de história, Almeida tem um estilo de humor mais escrachado. E também sabe ser crítico: “O subúrbio teve importância vital para a cidade, mas a história da cidade fala só do centro e da zona sul”, critica. “Nunca tive pretensão de ter 200 mil curtidas nem lançar livro: aconteceu”.

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