Dia de gorjeta gorda. Tinha que ser pontual. Três vezes por semana, encostava o táxi no Edifício Mata Doce para cumprir igual trajeto e obrigação: levar Dona Marileide, viúva e professora aposentada, a um asilo de velhinhos, onde ela servia como voluntária. Por que, essa mulher com situação financeira resolvida - o falecido a deixara muito bem - não aproveitava o que ainda lhe restava de vida? Por que preferia viver assim cuidando de velhinhos? Dona Marileide era mesmo incrível, uma alma santa, concluiu o taxista.
Marcos estava feliz por servir à amiga, cuja gorjeta, ao final de cada corrida, praticamente dobrava o taxímetro. Alguma coisa, contudo, intrigava o taxista. Por que ela se arrumava tanto? E aquela maquiagem? Por que tanto perfume? Pra ver velhinhos? Para uma mulher tão santa, estava emperequetada demais. Que Deus o perdoasse, não tinha nada com aquilo, mas luxo e caridade nunca combinaram. Não era ninguém pra criticar mulher tão boa, cada um vive e se veste como quer, entendia isso, mas continuava achando que uma roupa mais simples combinaria mais com o asilo.
Bom dia, querido, que manhã maravilhosa e nós dois, mais uma vez, juntos, pra ajudar os nossos velhinhos. Recatadamente, Dona Marileide fazia questão de sentar-se no banco traseiro. Com igual alegria se vestia: blusa, saia, sapatos, bolsa, brincos, echarpe, tudo vivamente combinando. Ela entrava, o carro perfumava. Animado, Marquinho? Pronto pra me ajudar no voluntariado de mais um dia? Com o carro em movimento, a conversa era sempre agradável, uma energia positiva emanava de cada palavra, de cada sorriso daquela mulher admirável. Já estamos chegando, dona Marileide. Desgraça!, percebeu que fora traído, outra vez, pelo “dona”.É que, nos seus cinquenta, tinha dificuldade de tratá-la de outra forma. Quantas vezes vou ter que pedir pra você cortar esse “dona”, mania de me deixar mais velha! Pelo retrovisor, ele percebeu o tamanho do desagrado, sabia que a pancada vinha forte.
O tempo corria gorjetando gordo pelo quarto mês. Uma tarde retornando do voluntariado, Dona Marileide pareceu-lhe um pouco tensa: Sabe, querido, estou espiritualmente realizada, a gente pensa que está ajudando os necessitados, mas a verdade é que o amor é um bumerangue, ele bate e volta, devolvendo muito mais do que a gente deu. Estou sim feliz, mas vou lhe confessar algo, preciso pensar um pouco mais em mim como mulher. Fez uma pequena pausa, depois retomou: Marquinho, vou lhe fazer um pedido: a partir deste momento, não me olhe mais pelo espelho retrovisor. Por favor, não torne as coisas mais difíceis... Ouça apenas e procure me compreender. Tudo bem? Apesar da idade, ainda me sinto mulher. E como qualquer uma, gostaria de curtir uma boa companhia, um bom vinho, um bom papo... Não me leve a mal, pelo amor de Deus, procure me entender... Aliás, só estou conseguindo dizer essas coisas a você porque estou conversando com a sua nuca. Assim, não vejo os seus olhos de espanto ou de censura, sei lá o que você está pensando dessa minha loucura. Olho no olho seria impossível. Marquinho, preciso lhe dizer, sou mulher, tenho desejos, pronto disse.
Depois do susto, o taxista procurou manter a normalidade. Fique tranquila, Marileide. Eu compreendo. Um táxi é quase um consultório de terapia. Muito aqui já ouvi e aprendi a respeitar cada dor confessada. Não julgo ninguém. Pra mim, tudo o que me disse não muda nada. Sei perfeitamente quem a senhora é..., desculpe-me, sei quem você é e entendo o seu lado mulher. Se precisar, Marileide, pode contar comigo. Já estou até gostando desse vinho e desse papo... Quem sabe, ainda hoje, lá no seu apartamento? Sorriram. Agora sim, olho no olho. Mas tem uma coisa, querido, aliás, uma exigência: quero que tudo aconteça – se acontecer... - sem qualquer prejuízo profissional pra você. Por isso, além da gorjeta de sempre, quero também que você deixe o taxímetro ligado. Assim, enquanto estivermos juntos lá em cima, o carro continuará trabalhando aqui em baixo. Pode ser assim?
Pode sim, querida. Mas... pode ser bandeira dois?
O autor é professor de redação e Membro da Academia Bauruense de Letras curso_romag@uol.com.br