No alto verão de 1989, visitei em Paris o Cemitério Père Lachaise, um ponto turístico permanente pelos aspectos históricos e pelas pessoas que lá descansam a carcaça somática de células e ossos: Honoré de Balzac, La Fontaine, Oscar Wilde, Chopin, Edith Piaf, Sarah Bernhart, e outros célebres. Um dos jazigos mais visitados é o de Allan Kardec e de sua esposa Amélie Boudet. Sempre repleto de flores, mesmo no inverno, sob neve.
Dias antes da minha visita, havia ocorrido uma violenta explosão que danificou a estrutura de granito rústico, fazendo desabar o teto, um monólito de quatro toneladas onde se esculpira o epitáfio: “Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei”. Os espíritas parisienses estavam mais interessados em repor as flores do túmulo do “maior missionário depois de Jesus”, do que em saber os motivos e os autores do atentado. As más intenções são perdoadas (mas não limpas). Quem faz o que não deve paga, nessa ou em outra vida, até se aperfeiçoar – era o que diziam.
Professar a doutrina espírita nunca foi fácil, mesmo no tempo em que Allan Kardec esteve encarnado no corpo do pedagogo francês Hippolyte León Denizard Rivail, discípulo de Pestalozzi, no século 19. À época o bispo de Barcelona mandou queimar 300 exemplares de O Livro dos Espíritos, como se fosse possível “queimar ideias”, como respondeu o autor. “Em vez de extinguir, as chamas as superexcitam”. Para os espíritas, a vida que levamos neste planeta não seria a nossa primeira existência corporal. A alma sempre regressa à vida, mas em outro corpo especialmente formado para ela e que nada tem a ver com o antigo, seja neste ou em outro mundo.
Bem a propósito o escritor bauruense Sidney Fernandes lança, a partir de hoje, seu sétimo livro onde conta o surgimento da doutrina espírita, em forma de romance de época. Para tanto recria a atmosfera de Paris sob Napoleão III, a partir dos anos 1860. Foi nessa década que Kardec se tornou o “codificador do espiritismo”, segundo seu próprio neologismo. Teve que vencer muitos preconceitos e incredulidades.
Estavam na moda nos salões de Paris as tais “mesas giratórias”, onde as simulações de contatos com os mortos tinham como objeto o charlatanismo. Fernandes, com suas pesquisas, nos introduz ao conhecimento do mundo invisível dos espíritos, e dos princípios fundamentais da ciência, que também têm muito de filosofia. Toca na questão vital, que é a felicidade do homem.
O romance faz uma releitura de Balzac para descrever as luzes e a vida dos parisienses, magnificamente sintetizadas na capa de Milton Puga. O autor se utiliza de várias edições da Revista Espírita, editada por Allan Kardec, para compor as suas histórias. Essa técnica foi adotada por James Joyce, em Ulisses, ao fazer superposições com revistas e “collage” com estilos literários. O escritor bauruense consegue vívidas imagens daquela Paris que se preparava para entrar na “belle époque”, mas já fervilhava de intelectuais. Victor Hugo lançavaOs Miseráveis, ele mesmo um defensor da “existência de seres que povoam o invisível”. Tentava se comunicar com a filha Leopoldina, morta por afogamento. Deixou-nos este poema: “Eu digo que o túmulo que sobre os mortos se fecha/Abre o firmamento/ E o que acreditamos aqui em baixo ser o fim/É o começo”.
As imagens recriadas por Fernandes visam apelar à percepção do leitor. E desse modo projetar em sua mente cenas da vida ficcional que podem se tornar para ele, leitor, tão realista como qualquer recordação pessoal. Nas obras dos grandes autores existe inúmeros exemplos de ilustrações verbais para produzir verossimilhanças. No livro de Fernandes, a xícara de chá acidentalmente derramada sobre o tapete de lã (sinalização do espírito), leva à descoberta da causa da asma do personagem principal. Há também momentos de suspense em um quase envenenamento, evitado pelos espíritos-investigadores. Conan Doyle, criador de Sherlock, acreditava neles.
A Editora do Ceac (Centro Espírita Amor e Caridade), com as dezenas de livros de Richard Simonetti e mais esta obra de Sidney Fernandes faz de Bauru uma cidade polo também em literatura. Temos outras três – pelo menos – boas editoras na cidade.
Gosto da boa literatura, não sou espírita, mas acredito que os livros têm seu destino, e às vezes o destino do autor segue o de suas obras. Tolstói, depois de tanto descrever cenas de trens e locomotivas em Ana Kariênina, morreu numa estação. Como a personagem do seu romance.
O autor é jornalista e articulista do JC