Como aconteceu em muitos países que se desenvolveram, tudo leva a crer que o Brasil passa por um importante momento de transição institucional. Algo como uma encruzilhada: ou as mudanças em curso consolidam melhores regras para o jogo ou acabamos no que alguns chamam de um grande acordão, preservando nosso sistema de privilégios e laços corruptos.
Diz a lenda que na encruzilhada há “várias ideias” que nos tentam para a saída fácil, mas cujas consequências serão impiedosamente cobradas no futuro. Uma dessas “ideias” quer atrapalhar as investigações e livrar o sistema político e seus amigos da responsabilidade de prestar contas pelo que fizeram, pelo que fazem e pelo que ainda podem fazer.
Felizmente, a pressão popular tem sido implacável com essa “ideia”: quando parlamentares tentaram anistiar o caixa dois, diversos grupos se mobilizaram nas redes sociais e organizaram protestos. Ao final e felizmente, foi preciso atender à voz das ruas, segundo palavras do presidente Michel Temer. Apesar de alguns tropeços, há a expectativa de que esse tipo de pressão continue e de que mais e mais poderosos sejam julgados e punidos. É claro que as ruas ganham cada vez mais força, em resposta a um esforço tão importante quanto o do combate à corrupção e as necessárias reformas para o ajuste fiscal.
O problema não virá necessariamente dos grupos de esquerda, que ainda acham ser possível resolver nossa economia com mais gastos e juros cortados na marra, apesar do fracasso retumbante dessas políticas. O real problema virá quando a oposição às reformas emergir daqueles que foram às ruas lutar por mudança. Defender o combate à corrupção é uma coisa, difícil será convencer a população a apoiar reformas que afetam seu bolso, especialmente quando elas são encabeçadas por um sistema que tanto se nutriu de privilégios e por um governo cada vez mais enrolado em denúncias.
Outra “ideia” na encruzilhada,pode ser sussurrada ao ouvido: o problema não é que gastamos muito, o problema é que os políticos roubam, e eles não têm legitimidade para cobrar mais sacrifícios.
A única chance de calar essa “ideia” é mostrar de forma clara que as reformas são parte complementar do combate à corrupção, o uso mais disciplinado de recursos, nem vantagens para poucos. Não é o que temos visto. Os próprios membros do Judiciário se calam quanto há necessidade de controlar salários em excesso. A reforma prevê mudanças no regime de aposentadoria dos políticos, mas deixa para uma segunda etapa a forma como a transição será regulamentada. O sacrifício precisa ser de todos, caso contrário, teremos meias reformas que só farão alimentar sentimentos de injustiça e desigualdade, sem grande efeito na recuperação da economia.
Ajudaria também ter líderes sem mácula nem histórico de privilégios, com mais investigação e disciplina de gastos. Líderes com capacidade de articular os Três Poderes não para salvar um ao outro, mas para levar a cabo boas e coordenadas melhorias. Sem dúvida, não é o que temos hoje, isso não significa que a população não possa se preparar desde já, sinalizando de forma clara o que espera de futuras eleições, ou simplesmente nos conformemos com o que aí está e sempre esteve.
É isso que queremos?