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Brincando com fogo

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Donald John Trump flerta com o perigo. Astuto, ensaia desprezar a democracia, mas é justamente graças a ela que consegue dizer o que bem entende. Com três milhões de votos populares a menos do que Hillary, mas alçado ao poder pela regra eleitoral vigente nos EUA, o desbocado quer imprimir logo a sua marca. E é pra já.

Nesses tempos de velocidade estonteante, para que esperar, maturar, discutir, amadurecer? Erga-se logo o tal e muro e dane-se. O filósofo e escritor Mario Sergio Cortella bem lembrou: depois de uma guerra num passado remoto, os EUA ampliaram seu território tomando terras mexicanas. Agora vão meter uma barreira gigante para impedir mexicanos de chegarem a áreas que, um dia, foram suas. Boa vizinhança? Dane-se. O presidente mexicano praticamente foi desconvidado via Twitter pelo Trump midiático e tecnológico.

Agora, para além das provocações diplomáticas, quando o todo poderoso defende "fogo contra fogo" na cruzada contra o terrorismo, aí pode ele sofrer consequências pesadas. Tudo bem não gostar de ficar em cima do muro, de ter sempre uma opinião formada sobre tudo, problema dele. Mas muros e murros não combinam com pessoas de bem em 2017.

Esse entendimento de que tortura pode ser adequada contra os malucos sanguinários do Estado Islâmico abre portas de outros porões. Imagine, como observou Ricardo Boechat, uma autoridade cumpridora da lei, num quartel qualquer, ganham um aval desses de seu presidente? E já ganhou. É quase uma licença para matar - em nome da paz mundial.

"Fogo contra fogo", também nome de filme policial (e norte-americano) de 1995, nunca parece ser a melhor alternativa a ser adotada por quem tem muito poder nas mãos. Lei, inteligência policial, aparato de investigação, cooperação entre nações, tudo isso, sim, ainda que com resultados mais demorados, deve ser incentivado. São legítimas táticas. Não são sádicas práticas.

Numa luta contra extremistas na base do "olho por olho" soltando faíscas de ódio, pode Trump se queimar primeiro. Não sem antes tocar fogo no mundo.

 

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