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A morte tudo perdoa

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Os romanos diziam que “a morte tudo resolve” (mors omnia solvit). O princípio humanístico era aplicado como perdão implícito aos que deixam de existir como matéria. Inclusive permeia a norma jurídica, com a extinção da punibilidade.

    

Marisa Letícia Lula da Silva morreu e não terá mais que se submeter a julgamento nos processos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia, dos quais foi ré. Se ela teve ou não alguma participação no conluio com empreiteiros de obras públicas, a Justiça já não terá a obrigação de puni-la ou absolvê-la.

     

Mais triste que a morte é a politização do tema. Na porta do Hospital Sírio-Libanês, enquanto a esposa do ex-presidente Lula agonizava, houve quem portasse cartazes: “Vá se tratar com médicos cubanos”. A médica do Pronto Atendimento esqueceu-se dos seus compromissos éticos e postou informações da paciente no WhatsApp do seu grupo, festejando também o “cumprimento da cota” de procedimentos sob sua obrigação. Aqueles que comemoram a morte cerebral da paciente, provavelmente nunca correrão esse risco no futuro porque, simplesmente, não têm cérebro. As piadas de mau gosto continuaram nas redes sociais depois da família ter autorizado a doação de órgãos, constatada a morte encefálica.  

      

Qualquer manifestação que explore a doença de alguém é covardia. O mal pintado de bem é o pior que pode acontecer neste país onde crises se eternizam. As reações da moderação foram ultrapassadas por radicais da moral de conveniência. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, adversário de ontem, foi levar o seu abraço fraterno a Lula num momento de dor. Nem se tratou do reconhecimento ao apoio que FHC recebeu de Lula em 1978, como candidato ao Senado. Naquele ano o então jovem líder sindical recebia o jovem professor de esquerda no seu retorno do exílio. Depois os caminhos se separaram.

     

Porém, ambos já estavam marcados pelo destino para a missão de futuros governantes deste país. Em 2008, quando Ruth Cardoso morreu, Lula foi ao velório apresentar seus sentimentos. São gestos e atitudes humanas, sem as quais nada vale à pena. Também não faltou quem tenha acusado o juiz Sérgio Moro de ser o responsável pelo AVC de Marisa. Frei Leonardo Boff, em sua conta no Twitter, seguiu o tom da reação virtual: “Sérgio Moro, evangélico piedoso, deveria ir à igreja pedir perdão a Deus pelos excessos cometidos contra Marisa e à família Lula da Silva”.

    

Outro cidadão recomendava à senhora Lula, em coma, “não ligar para os comentários dos coxinhas e abutres. Deixe o ódio para quem tem ódio”. Coxinha foi a denominação dada pela ex-primeira dama aos manifestantes que foram bater panelas sob a janela do seu apartamento em São Bernardo. Fiel à rusticidade da infância passada na zona rural, naquela ocasião respondeu à turba com um solene: “enfiem a panela no cu”. O mundo acabou faz tempo. Só vivemos sobre os escombros.

   

De babá aos nove anos de idade à primeira-dama do Brasil, a esposa de Lula foi ao paraíso, para depois voltar ao inferno da gritaria à sua porta e das mensagens grotescas nas redes sociais. Infelizmente, as facilidades tecnológicas da comunicação que deveriam unir pessoas, estão servindo à intolerância e a falta de ética.

         

A morbidez está na moda. Existem até os “haters”, os que odeiam e fazem disso uma obsessão. Eles não desejam ser ou possuir algo de alguém. Nada relacionado à inveja. Essas pessoas querem apenas criticar, e desvalorizar os outros perante o seu grupo social. Os alvos preferidos são as celebridades e figuras públicas e, as redes sociais, as ferramentas de ataque. São pessoas com ideologias fortes e que não aceitam opiniões divergentes. Para atacar eles se unem e enviam mensagens de ódio. A vítima recebe dezenas, centenas de mensagem porque emitiu alguma opinião que não agradou ao programa ideológico que defendem sem mesmo saber por quê.

     

Sempre é bom relembrar a lição do poeta John Donne, que viveu há mais de 400 anos na Inglaterra e inspirou a obra literária de Ernest Hemingway. Ele dizia, num poema, que a morte de cada ser humano diminui a todos nós, porque fazemos parte da humanidade. Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio. Cada ser humano é parte de um todo, uma parte do Continente. “Eis porque nunca pergunto por quem os sinos dobram: é por mim”. Quando alguém morre, como parte que somos do todo, morremos nós.

O autor é jornalista e articulista do JC

 

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