Tribuna do Leitor

A morte e o sepultamento de nós mesmos

Professor Lucas Dias
| Tempo de leitura: 2 min

O caixão segue aberto. As flores, já murchas, se acumulam em suntuosos adornos e coroas que enfeitam o defunto que pouco se incomoda com o perfume triste dos cravos. Alguns dos poucos presentes choram, até soluçam por tamanha consternação; outros, mais céticos, observam de longe, balançando um copo médio com café morno.

O velório, interminável, se arrasta durante dezenas, centenas e milhares de dias e noites. O defunto, por sua vez, permanece calado e imóvel, exalando gradativamente um desagradável mau cheiro, convidando as interesseiras moscas fascistas a celebrarem um "quase final", perpetuando, assim, sua espécie que continua a aumentar.

Por mais que o sentimento de despedida se faça presente, nenhum dos que ali estão - nem os mais emotivos ou mesmo os mais incrédulos - desejam enterrar, de uma vez por todas, o triste cadáver denominado por alguns como humanidade, compaixão ou justiça.

A capacidade de avaliar as consequências dos atos tomados, exclusivo da finada humanidade, há muito tempo está sendo velada nas nossas ilusões natalinas, nos nossos confortos espirituais e nas torpes caridades do dia a dia, que compartilhamos e condecoramos para que o mundo veja e aplauda.

Se a humanidade está morta, quem então a matou? Do que ela padeceu? A quem, ou o que, devemos atribuir esse lamentoso e real descalabro? Sem sombra de dúvida, os culpados pelo trágico evento somos nós, eu e você - todos, sem exceção. Esmagamos, com o peso da nossa arrogância, qualquer chance, mínima, de ressurgir nos nossos corações o nobre senso de justiça e compaixão que tanto dizem que somos capazes. Mentirosos.

A frieza tomou o lugar do amor; fomos dominados pelo ódio, pelo egoísmo e desejamos, até para outros iguais a nós, um fim que não desejamos para nós mesmos. Por quê? O que nos fez tão podres? O que diremos nós a posteridade, quando estes questionarem o porquê de termos nos tornado aquilo que tanto condenamos? Doce hipocrisia, com cheiro de cravo, regado a café gelado.

Empurremos de vez à sepultura a mentirosa esperança de um futuro melhor. Enterremos - sem o desespero em querer exumá-las - nossas mentiras e enganos.

Erramos enquanto espécie. Talvez, trajados de fera, assumindo definitivamente a bestialidade, nos trataremos e conviveremos da forma que realmente merecemos. Hoje invejo os que descem a sepultura, pois eles carregam consigo aquela inocente esperança da existência de outro mundo melhor ou, sem dúvidas, menos cruel que este.

 

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