Tribuna do Leitor

Xingar também é cultura!

Cesar Augusto Teixeira de Carvalho - Prof. dr. aposentado do Dep. de Engenh
| Tempo de leitura: 4 min

Outro dia vi numa rede social um esquerdista que apoia o socialismo xingar de “fascista” um liberal que apoia o capitalismo. Achei estranho, pois seria o mesmo que chamar de “vermelho” algo que é “azul”. Ao xingar, com certeza o esquerdista não sabia que o fascista de verdade odeia toda prática liberal do capitalismo, e que o sistema fascista é muito mais parecido com o socialista que ele apoia, e bem diferente do capitalista que ele repudia.


Sabe-se que o capitalismo é um sistema econômico de livre iniciativa para empreender, numa sociedade democrática e republicana, onde sua grande vantagem é a multiplicidade de atividades e empregos que ele gera. Entretanto, o capitalismo não é um sistema criado por alguém, pois aconteceu naturalmente num ambiente de liberdade e, se é assim, é porque reflete o modo de ser geral da população. Já o socialismo é um sistema concebido por alguns – como, por exemplo, Karl Marx – no sentido de tentar se contrapor as desigualdades sociais geradas pelo capitalismo, onde ficou consagrado o modelo da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) que foi seu primeiro e grande experimento (1922 a 1991).


Visando a igualdade social, neste modelo foi abolida a livre iniciativa e a propriedade privada, com o Estado se apropriando e gerenciando tudo. Por outro lado, o fascismo ficou conhecido quando Mussolini – líder do Partido Nacional Fascista – governou a Itália entre 1922 a 1943, e tem uma frase sua que dá a dimensão deste sistema: “Tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”. Isto quer dizer que, apesar dele manter a propriedade privada, o Estado fascista controla tudo. E se o fascismo controla tudo, é evidente que ele odeia a liberdade do capitalismo, o que não faz sentido aquele xingamento.


Enquanto no capitalismo existe a propriedade privada e ampla liberdade de ação, com a sociedade vivendo sob as regras do livre mercado, no socialismo o comportamento é outro uma vez que é o próprio Estado que, através de um planejamento centralizado, dita as regras de produção e distribuição dos produtos. No fascismo, existe propriedade privada, mas a liberdade de ação das pessoas e das empresas se restringe as questões banais do cotidiano, sendo nas questões maiores – como, por exemplo, relativos a imprensa e sindicados – obrigadas a seguir as diretrizes ditadas pelo Estado.


A estrutura de poder capitalista é bem diluída, onde se tem no Estado os três poderes: executivo, legislativo e judiciário. E, para se evitar o poder absoluto, entre estes três poderes existe mecanismos de controle, dando uma integração e equilíbrio ainda maior ao sistema.  A estrutura republicana e democrática do capitalismo, com congresso soberano, instituições independentes como o ministério público com a função de que as leis sejam aplicadas a todos, eleições e imprensa livres, no socialismo e no fascismo simplesmente não existem. Tanto no socialismo como no fascismo, a cúpula mandante tem um poder sobrenatural, uma vez que é concentrado, tornando estes sistemas verdadeiras ditaduras.


Apesar destas conceituações baseadas na história, existem por ai algumas confusões e muitas adaptações que mudam a maneira de ver as coisas. Por exemplo: o Nazismo, cujo nome completo era “Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães”, apesar de ter “socialismo” no nome, o modo de ser do Nazismo de Hitler estava mais para o Fascismo de Mussolini do que para o Socialismo de Stalin, pois são semelhantes as estruturas de poder e os controles que estes exercem em suas respectivas empresas privadas. O Vietnã (República Socialista do Vietnã) tem também socialismo no nome, mas já adota algumas práticas capitalistas dando alguma liberdade para iniciativa privada.

Até Cuba (República de Cuba), que inicialmente tinha adotado o modelo socialista da URSS onde o Estado era dono de tudo (inclusive de pizzarias e carrinhos de pipoca), já tem liberado parte para iniciativa privada como, por exemplo: em pizzarias e carrinhos de pipoca. Já a China (República Popular da China) viveu longo período na igualdade socialista com modelo próximo da URSS, onde o PIB e a renda per capita eram muito baixos, e tem até hoje uma estrutura de poder compatível com este sistema. Mas, com a abertura para a iniciativa privada e economia de mercado, a partir de 1978 o país deu um gigantesco impulso econômico sendo atualmente o 2º maior PIB do mundo, perdendo apenas para os EUA. Apesar disso, sua renda per capita melhorou, mas continua baixa para os padrões do 1º mundo, uma vez que grande parte de sua população não se integrou nesta evolução, sendo hoje um dos países de maior desigualdade social, onde a parte que está melhor é a que se beneficia diretamente do capitalismo. Esta miscelânea toda eles chamam de “socialismo com características chinesas”.


Que lição podemos tirar disto tudo? Uma delas é que os livros de história e os dicionários têm que se atualizar aos novos modelos de socialismo que vão surgindo, mas a principal é o fato de que os socialistas, ao invés de morderem a própria língua ao xingarem, deveriam reconhecer de público que o capitalismo tem suas virtudes, pois, discretamente, já começaram a implementar seus princípios em seu próprio sistema. Antes assim! Pra melhorar mais ainda, só fica faltando toda estrutura democrática e republicana, e ai teríamos unificado o “socialismo com características capitalistas”.

Comentários

Comentários