Articulistas

Questão de ordem

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

O burro tem andado no lugar errado, atrás da carroça. Irritado, o imaginário popular vem se esforçando para colocar o burro no lugar certo. E por uma razão bem simples: a ordem das coisas nem sempre pode ser aleatória ou invertida. Primeiro as meias, só depois os sapatos. Também antes de opinar, deveríamos buscar a necessária informação: ler, refletir, ouvir as razões do outro para, só depois, a boca abrir. Não é o que vem ocorrendo. Com o advento das redes sociais, todo mundo ganhou microfone. Entusiasmadas, bocas enciclopédicas passaram a opinar sobre tudo. Da filosofia à economia, do direito à medicina, da política à gastronomia, tudo se comenta e sobre tudo se opina com a natural facilidade de quem a água bebe. Nada contra o sagrado direito da livre expressão, mas muito ganharíamos se o burro puxasse a carroça. Primeiro a informação, só depois a opinião.

Lena Dunham, autora e protagonista de Girls, seriado da HBO, exemplifica muito bem esse comportamento da fala epidérmica: "Tenho forte opinião sobre tudo. Mesmo em tópicos sobre os quais sei pouco a respeito." Tal confidência foi o suficiente para que o arguto psicanalista Contardo Calligaris ponderasse: "O que Dunham disse é apenas uma regra universal e incontestável: ao tomar posição sobre qualquer tópico, quanto menos soubermos, tanto mais mostraremos e sentiremos uma certeza absoluta."

Calligaris é incisivo quando aperta o inteligente botão. É por aí, quanto mais ignorância, mais certeza. Logo, vale a ilação: quanto mais sabedoria, mais dúvida. Por ser ingênua e superficial, às vezes até emotiva, a leitura dos fatos faz com que se ignore a complexidade que envolve todas as coisas. Quem só a canela molha nas águas do rio, nada sabe da sua real profundidade. Então por tão pouco enxergar, acaba-se abraçando a mais apaixonada certeza. A ignorância é, sobretudo, na religião, na política e na moral um terremoto devassador. A propósito, pense-se no Estado Islâmico.

Façamos o raciocínio inverso: quanto mais se indaga, mais se pesquisa e se aprofunda em uma determinada questão, menos certezas haverá porque as dúvidas, progressivamente, tomam conta daquele que reflete. Olhos bem informados veem as coisas por múltiplos ângulos, a tudo relativizam, afastando aquele entendimento simplista que mora em cada certeza. Se a ignorância se dá muito bem com as certezas; a sabedoria, com as dúvidas. É do ignorante sentir-se seguro nas suas certezas. É do sábio sentir-se inseguro por saber que nada sabe.

Fácil perceber o discurso de quem está entupido de certezas: a voz elevada, a gestualidade agressiva, a fala emotiva e fortemente acusadora... Assim são os donos da verdade quando protagonizam seus discursos sob o foco dos refletores. No sentido inverso, as dúvidas não gostam do palco, tampouco das luzes. Abafam a força da voz, deixam tudo em aberto, nenhuma sentença na mesa. Exposta fica, apenas, a humildade de quem resposta não tem. Lanterna com foco reduzido é sempre instrumento perigoso. Pudera, leva o incauto ao equívoco de achar que a realidade toda está ali naquele pequeno círculo iluminado. Certeza idiota. Entre nós, a escuridão é tão densa e tamanha que sempre haverá mais coisas entre o céu e a terra do que possa imaginar o foco pretensioso de qualquer lanterna ou mesmo a nossa vã filosofia.

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras.

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