| Samantha Ciuffa |
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| "Eu comecei a tocar sozinho, com 16 anos. Eu tinha só um par de baquetas e o sofá de casa, que serviu como bateria para mim no começo” |
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Um par de baquetas e um sofá. Com 16 anos de idade, esses foram os únicos recursos que Antônio Roberto Sassi, o Beto Sassi, dispunha para desenvolver os primeiros ritmos. A bateria veio só no ano seguinte. Autodidata, o baterista bauruense, hoje com 66 anos, dedicou praticamente a vida inteira à música, tocando em bailes na cidade, em outros municípios e, inclusive, fora do Estado.
Em 1970, “Os Incríveis”, primeira banda que Beto participou, inaugurou o carnaval de salão do Bauru Atlético Clube (BAC).”Era a época da geração Jovem Guarda”, recorda-se, em tom nostálgico.Três anos depois e após inovações que envolviam mais músicos nos metais, nascia a “Banda da Folia”, que ficou na estrada bastante tempo. O grupo fez uma pausa e retomou o projeto há sete anos, período em que anima as tradicionais prévias carnavalescas da Sociedade Hípica de Bauru.
Beto lembra a época em que o Carnaval de salão contagiava crianças e exaltava as marchinhas. Para o baterista, a festa em clubes perdeu a autenticidade com o passar dos anos. “Não tem mais tradição. Antigamente você levava os filhos na matinê, os filhos cresciam e já tinham idade para frequentar o Carnaval à noite. Passavam essa época, casavam, tinham filhos e os levavam na matinê. Era uma tradição, uma sequência”, lembra.
Sobre escolas de samba, blocos e carnaval de rua, o músico enxerga um crescimento. Uma constatação que se estende à retomada dos desfiles no Sambódromo de Bauru nos últimos anos. “Tenho visto milhares de pessoas nas arquibancadas. Isso é uma prova de que existe um motivo, tem lógica e público para isso. Se não tivesse lógica, não teria público. Uma escola interage com a outra. É um grande teatro a céu aberto”.
Jornal da Cidade: Como surgiu a paixão pela bateria e quando você começou a tocar?
Beto Sassi: Meu pai era músico. Tocava contrabaixo, aquele rabecão bem antigo, acústico. Eu comecei a tocar bateria sozinho, com 16 anos. Eu tinha só um par de baquetas e o sofá de casa, que serviu como bateria para mim no começo. Eu ouvia a música, via muita gente tocar e ia associando o som que o baterista fazia a cada peça da bateria. Até que, com 17 anos, ganhei a minha primeira bateria de uma tia, de terceira ou quarta mão. Aí nunca mais parei. Com bandas, fiz uma pausa de 15 anos.
JC: Como começou a Banda da Folia?
Beto: Era a época da geração Jovem Guarda. Com 20 anos, em 1970, formei minha primeira banda, chamada “Os Terríveis”, que originou o primeiro carnaval de salão, quando as quadras cobertas do BAC (Bauru Atlético Clube) foram inauguradas. Fiz o primeiro baile de carnaval do BAC. Em 1973, demos uma inovada no grupo, com uma pegada maior de metais. Nasceu, então, a “Banda Folia”, que ficou bem conhecida na época. Ao todo, fiz 16 carnavais consecutivos no BAC, entre “Os Terríveis” e “Banda Folia”. Ganhamos muitos troféus, fomos campeões de carnaval de salão e animação várias vezes. O carnaval de salão do BAC era o melhor da região. Reunia mais de 4 mil pessoas.
JC: E depois desses 16 anos seguidos fazendo o Carnaval do BAC?
Beto: A gente fazia, em média, três bailes por semana, em Bauru e fora também. Viajamos por diversas cidades, inclusive de outros Estados. Eram shows bem diversificados. Tinha seleção de boleros, seleção de rock, seleção de baladas, seleção de samba, entre tantas outras. Para bailes, tinha de ser um grupo eclético e versátil. Até que a banda acabou e fiquei 15 anos parado, de 1995 a 2010. Não tocava mais em projeto algum, mas sempre estive envolvido em produções musicais. Nunca abandonei a música por completo. Retomamos a “Banda Folia” em 2011, com boa parte dos integrantes das antigas. E, desde então, a gente vem fazendo os pré-carnavais da Sociedade Hípica de Bauru, resgatando o carnaval de salão dos anos 70, 80, tocando frevos, marchinhas...
| Fotos: Reprodução |
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| Sem perder o ritmo, baterista posa para foto durante show |
| Em 1983, na Boate Universitários: Elke Maravilha, Beto Sassi e Flávio Pedroso |
JC: Você acha que o Carnaval melhorou com o passar dos anos?
Beto: O Carnaval, de uma forma geral, de escolas e carnaval de rua, acho que vem crescendo. Já o carnaval de salão perdeu a autenticidade do que era. Não tem mais tradição. Antigamente você levava os filhos na matinê, os filhos cresciam e já tinham idade para frequentar o Carnaval à noite. Passavam essa época, casavam, tinham filhos e os levavam na matinê. Era uma tradição, uma sequência. As crianças se fantasiavam para ir ao salão. Hoje, boa parte da criançada não sabe cantar um “Mamãe eu quero” ou outras marchinhas famosas. Nunca ouviram para dar continuidade, porque estão ouvindo ritmos impostos pela mídia para tocarem no Carnaval. Criaram-se muitas tribos. Diversificou muito.
JC: Você enxerga de forma negativa essa diversidade de ritmos no Carnaval?
Beto: É difícil criticar, pois cada um tem seu gosto. Gosto é gosto. O que acontecia é que o estilo da nossa banda, por exemplo, tinha muito a ver com as escolas de samba, algo que não se vê muito na atualidade. Eu fui um inovador ao colocar, no carnaval de salão, os sambas-enredos. Era algo diferenciado, gostoso de tocar e gostoso de curtir nas festas de salão.
JC: De uns anos pra cá, vem aumentando o número de blocos nos carnavais de rua. Você vê isso como algo democrático?
Beto: Acho democrático, acho bonito. É uma forma de expressão, de extravasar a partir de uma cultura nossa, uma cultura brasileira. É uma forma de diversão, de descarregar um pouco as tensões do dia a dia. É algo que sempre teve. Na década de 70, tinha trio elétrico na (avenida) Rodrigues Alves e arrastava multidões. Houve, entretanto, um tempo de inércia nos carnavais de rua. Houve um bloqueio e nem faz tanto tempo assim. Não sei se foi problema financeiro ou algo estratégico, mas certo é que houve um tempo em que não teve carnaval de rua. Mas, agora, percebo que está voltando cada vez mais forte, resgatando uma época muito boa e a tendência é crescer ainda mais.
JC: Como você vê a retomada dos desfiles no Sambódromo nos últimos anos?
Beto: Tenho percebido um crescimento ano após ano. Tenho visto milhares de pessoas nas arquibancadas. Isso é uma prova de que existe um motivo, tem lógica e público para isso. Se não tivesse lógica, não teria público. Se não fosse um grande evento, não teria tanta gente lá para ver de perto as escolas, os blocos. Eu vejo também que as escolas e blocos evoluem cada vez mais. Hoje, a mídia está muito forte. Uma escola interage com a outra. É um grande teatro a céu aberto. Antigamente, por exemplo, era mais na raça, não tinha tecnologia. Não tínhamos equipamentos para sonorizar trezentos, quatrocentos metros de desfile. As escolas não tinham esse glamour e pessoas qualificadas que vemos hoje.
JC: O que você espera e deseja ver nos próximos carnavais?
Beto: Em termos de salão, vamos continuar com o que estamos fazendo, mantendo a tradição. Em relação ao carnaval popular, as escolas, têm que evoluir mais, têm que ser mais autossuficiente, como uma empresa. Depender cada vez menos do poder público. Lógico que infraestrutura, espaço, segurança e o que o sistema puder dar de suporte é necessário hoje, amanhã ou daqui 20 anos. Mas eu vejo que a cada ano tem evoluído bem. Eu, particularmente, gostaria de ver o carnaval de salão resgatando a tradição. É um sonho ver de novo as crianças brincando o Carnaval. Os jovens estão aderindo a essa proposta, mas num ritmo lento ainda.
Perfil
Antônio Roberto Sassi, o Beto Sassi
Tem 66 anos e nasceu em Bauru, no Jardim Bela Vista
Tem como hobby pescar e também a própria música
Tem duas filhas: Erika da Costa Sassi e Karina da Costa Sassi, além do neto Vitor Sassi
Time: torce para o Corinthians, mas não se considera um fanático
Música: rock, principalmente os clássicos
Nota 10: para quem promove arte em geral
Nota 0: para a corrupção e também à ganância


