Articulistas

Ao bailar da hipocrisia

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

Hoje tudo virou crime de discriminação: as fábulas de Monteiro Lobato, marchinhas de carnaval, poesias, aos olhos de uma minoria que vive a campear motivos para denegrir a herança cultural brasileira.

O registro da história é lavrado através dos usos e costumes da época, através da criação artística e literária, tudo agasalhado pelo direito de liberdade de expressão. O mundo inteiro valoriza o artista, o escritor, o músico, o compositor, elementos humanos que no deambular da história vão alinhavando ponto a ponto a herança cultural. Querer modificar tal acervo, ao bel prazer, é ferir os direitos autorais e a tão enaltecida democracia.

O ato intencional de instigar o denegrir de um autor é sinal de retrocesso e ausência de capacidade em avaliar a cultura, quiçá demonstrar o veio crucial da discriminação encravado no coração de quem vive a campear pelo em ovo. A verdadeira discriminação não repousa apenas na cor da pele, sequer nas atitudes pessoais, mas sim na vontade exacerbada de ferir o outro, de diminuir, de criticar de maneira ignóbil o trabalho e a criação dos que construíram e constroem a história de uma nação!

Ao bailar da hipocrisia, tudo virou discriminação. Devemos nos policiar para cantar, rezar, andar, vestir, falar, sentir e até mesmo se emocionar! Tudo há de ser fiscalizado, denunciado, tal e qual estilo do Terceiro Reich? Por onde anda a liberdade da oratória sem hipocrisia? Por onde anda a verdadeira liberdade de expressão? Qual o motivo de nos envergonharmos da cor da pele, dos cabelos, do sotaque da fala, dos usos e costumes de nossos ancestrais?

Quem sente vergonha é quem mais se incomoda com o outro. Quem usa de hipocrisia é quem mais salienta o pecado da discriminação, seja ela racial, cultural, religiosa ou a pior delas: a própria rejeição, quando o sujeito não se aceita como é e passa a campear motivos para espezinhar o outro, como se para brilhar necessário fosse ofuscar o lume alheio. Discriminar é demonstrar desafeto, rejeição, exclusão, assim como está ocorrendo quanto às marchinhas de carnaval, tão cantadas por décadas pela população.

Urge citar a intenção de denegrir a figura de Monteiro Lobato pinçando frases e citações literárias de um dos maiores autores brasileiros. Se há censura, que não seja unilateral! Oportuno excluir também "músicas", com o firme propósito de divulgar apologia ao crime, livremente apresentadas pela mídia! Agradar sem sentir é enganar. É viver ao bailar da hipocrisia! Enfim, é fácil ser bom, o difícil é ser justo!

Comentários

Comentários