Desaprender é mais importante do que aprender. Tudo porque a boca social começa, desde muito cedo, a encher as nossas cabeças com meias verdades e um outro tanto de mentiras inteiras. Esse discurso mentiroso que permeia todas as classes sociais e forma a opinião pública, é o "discurso do senso comum". Nenhuma novidade há em dizer que sob a pele das palavras sempre se esconderam interesses. Pudera, sem consciência de rebanho, não se pastoreiam ovelhas. Sabendo disso, o discurso do senso comum, retrógrado e maniqueísta, cuida logo de "fazer nossas cabeças". Pretensioso, dá um jeito e explica a vida de uma forma tal para que nada mude na ordem social que o favorece.
Estando feitas as nossas cabeças, saímos por aí papagaiando tudo o que aprendemos. Quase sem perceber, vamos alimentando o pensamento conservador que assegura os privilégios dos bem estabelecidos na árvore do poder. Um exemplo? "Cada macaco em seu galho", isso repetimos a todo momento. Frase assim, só pode ter sido criada por macacos que residiam em galhos luxuosos de cobertura. Estivessem eles na aflitiva situação de macacos pendurados em galhos ruins, quase partindo, jamais advogariam tal imobilidade. "De grão em grão, a galinha enche o papo". De quem é esse discurso? Claro, só pode ser do dono do milho (ou do milhão), nunca da pobre galinha. De grão em grão, a galinha enche, mesmo, é o saco! "Lugar de mulher é na cozinha". Eis a casca de banana que derrubou o Temer.
De "cabeça bem feita", cabelos alinhados, terno e gravata impecáveis, gestual quase teatral, a boca presidencial escorregou e repetiu mais um clichê do senso comum. Justamente no Dia Internacional da Mulher, o tiro saiu pela culatra. Discursando solenemente, Temer pretendia encimar as mulheres no mais alto pódio da importância social, mas traído pela casca do senso comum, foi logo colocando as "rainhas do lar" no espaço doméstico. Disse ter plena "convicção do quanto a mulher faz pela casa".
Em relação à educação dos filhos, a boca presidencial excluiu a figura paterna: "seguramente, isso quem faz (em casa) não é o homem, é a mulher". E quando, finalmente, tirou a mulher da cozinha, mandou-a ao supermercado: "Ninguém é capaz de indicar os desajustes, por exemplo, de preços em supermercados mais do que a mulher". Só faltou lembrar à bela Marcela que havia roupa, em casa, por lavar.
Os estereótipos do senso comum, semelhantes às ervas daninhas, estão por todas as partes e na ponta de cada língua. Um descuido qualquer, pronto a besteira escorrega da boca. Depois, o infeliz tenta emendar o soneto, que acaba sempre ficando pior. Ciro Gomes, quando candidato presidencial em 2002, também escorregou feio ao resgatar mais uma imagem perversa do senso comum: "A minha companheira (Patrícia Pillar) tem um dos papéis mais importantes, que é dormir comigo". Absurdo, tirou a mulher da cozinha e a levou pra cama! Já que a coisa descambou, que tal o folclórico Maluf? Quando da reivindicação salarial das professoras em 1981, ele malufou: "Professora não é mal paga não, é mal casada"
Desaprender é sim mais importante do que aprender. A cabeça tão bem feita pela boca social precisa um dia ser desfeita. Caso contrário, ficaremos repetindo por aí clichês esclerosados. Será mesmo que todo político é corrupto? E Deus continua sendo brasileiro? Mulher ao volante é perigo constante? Querer é poder? Será mesmo que a justiça tarda, mas não falha?
Desaprender é tão importante que os antigos professores de retórica em Atenas treinavam seus alunos para que discursassem discordando das "verdades" do senso comum. Essa técnica era chamada de "maravilhamento". Despois o expressionismo alemão, o surrealismo francês e, especialmente, o formalismo russo deram a ela nome novo: "estranhamento".
Essa urgência de resistir e de não ser eco do senso comum ganhou poesia de Alberto Caeiro, heterônimo de Pessoa: "Procuro despir-me do que aprendi. Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram. E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos. Desencaixar as minhas emoções verdadeiras. Desembrulhar-me e ser eu".
Outra opção não há. Ou desaprendemos a mentira ensinada e nos despimos das vestes impostas, e raspamos a tinta que tornou insensível a nossa pele, e desfazemos a cabeça feita, e rasgamos essa casca com que nos embrulharam ou então... melhor é desistir dessa ideia de sermos, de alguma forma, nós mesmos.